quinta-feira, 28 de maio de 2009

A transição do discurso, uma nova forma de estar neste mundo

Lançou-se neste blog um repto: dizemos que é um imperativo assumir a necessidade de mudança. Ainda não sabemos para estabelecer o quê nem como.

Quanto a mim uma questão que deve ser debatida é o conceito de solidariedade. Por um lado, discutir que tipo de solidariedade queremos promover e, por outro, como conseguir fazer com que haja mais pessoas a intervir em prol dos outros.

A verdade é que eu não acredito na existência de uma solidariedade motivada por razões puramente altruistas. E considero que o discurso "por razões morais" já não penetra na nossa sociedade. No entanto, acho necessário aumentar os níveis de solidariedade. Defendo, em oposição à ideia estabelecida, que a solidariedade mais adequada aos nosso tempos é a solidariedade dos interesses.

Vivemos numa sociedade movida pelos interesses. Sempre foi, mas agora é assumida. Contudo esse pequeno facto altera muita coisa. Porquê? Porque cada vez é mais difícil convencer alguém com um discurso centrado na empatia piedosa. A sociedade das liberdades individuais também é a sociedade dos interesses individuais. Uma vem com a outra. Como o contrário também é verdade, quanto a mim a solução para o problema que aqui trago à discussão não passa por aderir a visões que restrijam a liberdade individual (nem marxismos, nem neo-liberalismos, nem religiões, nem ateísmos militantes)

Eu sigo por outra via. Ou melhor, eu tento seguir por outra via. Na medida em que vivo num contexto híbrido, diverso, que sobre os mesmos assuntos tem gente mais conservadora e outros com uma visão mais progressistas. Nasci aqui. Vivo aqui. Por tanto, eu próprio tenho de lidar, internamente, com as minhas incongruências. Que para já se apresentam irreconciliáveis.

Mas proponho que na visão que estamos a construir sobre o nosso modo de vida se assuma plenamente a ideia de que estamos numa sociedade movida pelos interesses individuais. E que, em seguida, retiremos consequências dessa imagem. Primeiro, deixar de julgar toda a gente, permanente e violentamente por defender os seus próprios interesses. Porque nós também fazemos isso. Segundo, que se viva a partir de um discurso (porque de facto nós somos o nosso discurso) mais adequado à situação deste mundo, mais assente nas noções de ganho e perda.

Não estou a defender a absolutização dessa visão, mas defendo um ganho de ênfase no total da nossa ecologia comunicacional.

Por exemplo, o MAS é uma entidade que pretende reunir todos os actores sociais, e é por isso uma entidade política. Tem de ter um discurso. Pode ser mais ou menos moralista. Se for moralista, terá uma política de comunicação baseada nos números, com uma interpretação zangada pelo facto de ainda termos números tão elevados de pobreza, exclusão, etc. Considerando que os números e o ralhete têm um impacto positivo sobre a alteração dos comportamentos das pessoas, nomeadamente aquelas que têm maior capacidade para mudar a situação (dinheiro, tempo, poder, trabalho). Mas numa sociedade dos interesses as reacções empáticas estão circunscritas à família e/ou amigos. Logo, esse discurso não "entra" nesses meios sociais.

Não resulta. Podemos viver em negação da realidade e viver zangados. Podemos viver numa luta quixotiana. Podemos tudo. Vivemos numa sociedade livre e ainda bem. Mas não é isso que eu quero para mim e falo para aqueles que não querem isso para si.

Se o MAS adequar o seu discurso à sociedade dos interesses, a sua política de comunicação incidirá nos ganhos que cada indivíduo da sociedade pode ter a partir dos seus gestos de solidariedade. Não conheço estudos para sustentar um discurso concreto, mas poderá incidir nas questões da redução da insegurança, na construção de uma economia mais forte, na possibilidade de ver o contexto social elogiar o seu gesto, questão que mexe com os egos, etc.

Temos de decidir o que queremos: uma sociedade mais solidária ou mais "bem intencionada". Quanto a isso sou cínico: repito, não acredito na bondade pura e importa mais que alguém tenha comida em casa ou receba educação, mesmo que o dinheiro tenha sido dado porque alguém quis receber "festas" no seu ego.

10 comentários:

catizzz disse...

Não concordo nada contigo. Primeiro porque me parece que a verdadeira solidariedade é aquela que provém da consciência que nós e outro somos o mesmo, pequenas partículas interligadas que formam um todo. Esta noção não é moral, não é altruísta, não se baseia na mal parida caridade judaico-cristã. Para mim aproxima-se de conceitos espirituais, mas na verdade assume uma vertente sobretudo funcional.
A consciência de que estamos todos ligados permite que os nossos interesses individuais se desenvolvam incorporando "o outro".
Nunca poderei compactuar com essa sociedade de interesses, que quanto a mim, se reduzem a duas coisas: dinheiro e poder.
Além disso, e podes chamar-me quixotiana ou o que quiseres, mas o sonho e a utopia são dois pilares de vida para mim. Sem eles não há esperança. Desacreditá-los é pisar em cima de milhões de seres humanos que melhoraram a sua e a nossa realidade porque se atreveram em acreditar em qualquer coisa diferente, melhor.
Termos como bondade, piedade e outros que empregaste no teu post nada têm a ver com o interesse supremo de viver numa sociedade em que existe lugar para todos.
Eu quero algo diferente das hipóteses que colocaste. E penso que será lamentável se cedermos completamente ao tal jogo de interesses.
Prefiro então continuar a zangar-me com todas as injustiças que vejo, lutar como puder e jamais ceder quer aos Srs dos Interesses, quer aos Srs. da Caridade Piedosa.

Ricardo Castro disse...

Estamos de acordo em dois aspectos: a solidariedade é um aspecto funcional como outro qualquer, e o objectivo da solideriedade é incorporar o outro numa qualquer actividade comum.

Mas é difícil avaliar de que forma é que discordas comigo porque: primeiro, reduzes os interesses ao poder e dinheiro. Eu não.

E assumes que esperas que algo mude de modo a aproximar-se de qualquer coisas que tu consideras melhor. Mas essa "coisa", seja lá o que for representa os teus interesses. Não te interessa o que está, mas interessa-te uma alternativa.

Mais: nada do que eu disse nega a importância do sonho.

Aquilo que me importa é defender a importância das pessoas se ajustarem à realidade do seu humano, e não a uma sociedade específica. Contudo assumo que esta sociedade é assumidamente uma sociedade dos interesses individuais. Que por várias razões está desiquilibrado e isso significa muita gente a defender o seu interesse acima de qualquer outro. Eu desejo que essa difereça entre os interesses individuais e os coletivos seja atenuada. Só isso. E isso passa, quanto a mim, pela aproximação dos interesses individuais aos interesses colectivos.

Acontece que por razões várias considero que o discurso da solidariedade mais comum é moralista. E que este têm de se adequar à realidade para conseguir atingir esse fim: unir mais pessoam em torno de um projecto de sociedade inclusiva.

catizzz disse...

Pois, de facto, o estado actual das "coisas" interessa-me pouco no sentido em que não me revejo, globalmente, nesta forma de viver.
Também não sei concretamente de que interesses individuais falas, mas de facto, a maioria das pessoas vive para ter, não para ser (quanto muito interessa parecer). O consumo tomou proporções desmedidas e afecta todos. As pessoas são categorizadas pelo que têm ou não têm. O carro, a casa, as roupas, as férias, as escolas dos filhos.
Não me parece que estes interesses possam ser explorados a favor de um colectivo.
Terá que existir uma ruptura nesta espiral para que possamos avançar.
Para a tal alternativa, que dizes representar os "meus interesses". Pois os meus interesses são o desenvolvimento de uma sociedade justa, onde todos sejam respeitados. Como dizia Agostinho da Silva, em cada um de nós existe um poeta. Se as pessoas puderem TER as necessidades básicas asseguradas, ficarão livres para SER esse poeta.

La Payita disse...

Admito... Estou perdida nesta discussão.

Do que retive:

- não acredito em interesses individuais, porque vivemos interligados, a acontecerem serão sempre na nossa relação com o Outro;
- a solidariedade existe, ou já nos teríamos comido vivos há muito;
- a mudança acontece de forma dialética (eu mudo se sentir aceitação do Outro).

Vivemos em sociedade. É inegável.

Sem ter percebido grande coisa, arrisco-me a dizer que concordo com a Catizz.

Viver para Ser e não para Ter. Mas este Ser, para mim, é social.

(pronto, vá, não ajudei nada ao debate, pois não? tiro na água...)

La Payita disse...

E já agora aproveito para dizer que este blogue apresenta restrições às liberdades individuais...

Só podem participar bloggers.

E os outros? É que fazem parte do Mundo Social...

Ricardo Castro disse...

Respostas:

Não sei o que significa "verdadeira solidariedade". Mas é exactamente esse tipo de definições que procuro combater. Os motivos para fazer solidariedade são imensos. Cada um encontra a sua narrativa, possivelmente aquela que está mais de acordo com os seus valores.

Não consigo também fazer uma completa divisão entre ser e ter. É uma forma se ser suportar a vida naquilo que se tem. Ninguém deixa de ser, porque isso é uma condição natural da existência que qualquer ser humano.

Muitos dos que critícas porque vivem essa vida de TER são aqueles que têm as suas necessidades básicas preenchidas. Não há nenhuma correlação positiva entre ambas as situações.

Também não compreendo essa ideia de que só no âmbito do SER é que se vive em prol do social, porque as pessoas querem ter, na maioria das vezes por razões sociais. Talvez o que lhes falta são motivos pessoais, íntimos e individuais, para viver, sem preocupações com o social.

Aqui não se restrigem liberdades individuais. A não ser pelas razões que um debate na internet só permite participação daqueles que têm internet. Isso é uma grande confusão sobre o significado de liberdade individual. Primeiro, não me parece que existam impedimentos para quem quiser fazer um blog. Segundo, também existe nessa equação a nossa liberdade de escolher quem queremos que participe no nosso debate. A liberdade individual não passa pela obrigação de chegar a todos. Isso é o dever do mediatismo.

La Payita disse...

Sobre liberdades individuais...

Podemos ter internet e ainda assim não poder aqui contribuir para o debate.

O facto de sermos bloggers ou bloguistas não nos faz mais "pessoas". Quem é La Payita?

Qualquer um pode fazer um blog, claro. E colocar o nome que lhe apetecer. É a beleza da liberdade virtual. E qual é o sentido disso?

Qual é a diferença entre assinar um comentário anónimo ou com um nick e inventar um blog para poder participar noutros?

Não percebi.

Fui!

Ricardo Castro disse...

Existe na tua visão uma enorme confusão sobre o sentido da liberdade individual.

Nem eu nem o Artur somos messias. Nós criámos um blog. Só isso. E promovemos um debate para quem quiser e tiver acesso.

Este comportamento só restringe a liberdade individual idealizada. Aquela que sugere que é possível fazer escolhas sem excluir. Que é possível fazer sem prejudicar. Afirmar sem ofender.

Nós somos seres humanos, não somos conceitos. Devem ser os conceitos que se ajustam aos seres humanos.

Quem é que falou em alguém ser mais ou menos por ter um blog?...

Porque é que as pessoas têm necessariamente que participar neste ou noutro blog?

E o que é que o anonimato tem haver com a nossa escolha de apenas permitir aqui a participação de blogistas?

Nem sequer compreendo as razões de tanta irritação. Nem sequer como é que se responde a estas questões. Tudo isto me parece-me descabido. Esse deve ser parte do teu diálogo interno. Mas nada tem haver com aquilo que foi dito nestas discussões.

catizzz disse...

Isto está mais para Torre de Babel do que para Bisturi. Não me consigo fazer entender. Desisto.

Ricardo Castro disse...

A conversa começa sempre como uma Torre de Babel. Salvo raríssimas excepções.

Enquanto a Torre está de pé, os ânimos são sempre exaltados. Nessa fase o diálogo é sempre vivo.

As Torres de Babel só se destroem com diálogo.

Repito: falar é fácil, difícil é conversar.