segunda-feira, 18 de maio de 2009

Nem tanto ao mar nem tanto à terra

Os quotidianos têm vindo a tornar-se em autênticos fardos, muita gente sente que os tem completamente sobrecarregados.

É frequente ouvir da boca das pessoas a expressão, muito elucidativa: - Não tenho tempo!

Esta urgência tem várias consequências, exige que se tomem muitas decisões em espaços de tempo muito curtos, isso cria a sensação de que a vida nos foge por entre os dias passados e faz-nos pessoas exigentes relativamente à forma de ser e trabalhar dos outros.

Ficamos, portanto, muito sensíveis a quaisquer perturbações na nossa trajectória mental.

Em última análise esta pressão pode ter várias consequências, vou aqui e para já deter-me sobre duas situações, porque considero-as consequências muito frequentes. Ou bloqueamos no trabalho ou impedimos que as nossas relações se aprofundem. Este é um risco que todos nós estamos expostos. Os resultados de qualquer investimento tardam. E a pressão dos nossos dias nem sempre é contemplativa com essa necessidade de tempo. É a partir daí que muitos optam por orientar o seu esforço intelectual e emocional para uma dessas dimensões, deixando a outra à míngua, impedida de se expandir. E as consequências nem sempre são brandas.

Não existem receitas que permitam resolver estas questões, tal como se resolve um qualquer quebra-cabeças conhecido. Mas podemos estar melhor ou pior preparados para lidar com estas escolhas. Começando, em primeiro lugar, por estar alerta para esta situação.

A outra é libertar gradualmente, até um nível aceitável, a nossa pulsão moralista. Aquela dimensão que nos "obriga" a recuperar insistentemente o acontecimento passado, para o avaliar na sua dimensão moral. Na qual julgamos os outros por toda a mais pequena demonstração de falta de solidariedade, onde nos culpamos por não antevermos a embrulhada em que acabámos por cair, onde tudo é posto na categoria bipolar do bem e do mal ou entre o, definitivamente, certo ou errado.

Esta libertação serve para instrumentalizar um pouco mais as nossas avaliações. Em certas situações é importante parar para pensar. Mas mais importante do que isso, é retirar consequência daquilo que foi pensado. Para desenvolver e aprofundar relações é necessário, tal como para aprofundar a nossa capacidade de trabalho, avaliar as situações pelo que elas são. E numa próxima vez partir daí, estabelecendo-nos numa outra disposição, para reiniciar a nossa vida atarefada.

3 comentários:

Artur disse...

se bem percebi o teu comentário, a esse propósito ocorre-me dizer que o exercicio de escuta é necessário, bem como o da compreensão baseada na experiência com certeza, bem como no envolvimento das ideias, das teorias, do conhecimento. Essa disponibilidade, quere-se, pela sua necessidade de encontrar vias de desenvolvimento, activa!
Faz-me lembrar o arqueiro e a flecha. a necessidade de concentração de dominio da tecnica e conhecimento de si e a infatigavel vertigem de que apenas interessa atingir o centro, provavelmente de si mesmo

Ricardo Castro disse...

Sem dúvida. É muito importante saber usar a nossa capacidade de concentração. Mas também de saber focar e desfocar.

Às vezes é importante definir estratégias, saber para onde se vai, encontrar soluções para problemas que surgem no decurso dessa trajectória orientada.

Por vezes é fundamental fazer o contrário. Abrir todos os sentidos. Reduzir-nos a um passador, que se pôe em causa e reavalia os seus procedimentos, valores, ideias, etc.

Eu acho que uma posição moral muito clara, coerente, não crítica, impede que esta segunda forma de estar viva de forma saudável em nós.

Mas não defendo o vale tudo. Há limites. E é importantíssimo estabelecer limites. Mas estes podem ser alterados, modificados, expandidos. E em certos momentos também podem ser clarificados.

O moralista é aquele que tem sempre uma opinião definida para tudo, e nessa opinião reside um julgamento. (De forma rude posso dizer que essas pessoas fazem pequenos julgamentos em 90% das coisas que se lhes deparam no seu quotidiano: podia ser melhor!, aquele esteve bem; esteve mal; não gostei do tom com que ele falou; fala demais, está sempre calada, fala aos berros, é forreta, ele é egoísta, é chato, como é que alguém vê novelas, como é que ele lê aquela revista, ...)

Ora essa forma de estar é em si mesmo uma forma de estar em constante confronto com a realidade, com a nossa envolvente. A partir de certo nível esse confronto exige tanto de nós, exige um processamento mental tão grande, que nos retira capacidade intelectual e emocional para investirmos noutras coisas.

Por um lado satura, por outro bloqueia.

E é exactamente como dizes: deixamos de ter capacidade para ouvir, pensar em diversos assuntos, envolver.

E hoje é crucial lidar com múltiplas tarefas em simultâneo. Logo, é importante não saturar todo o "sistema" com um único assunto.

Ricardo Castro disse...

Em conclusão: não basta investir no trabalho ou nos outros, é imperioso que nós também estejamos no centro do nosso investimento.