terça-feira, 12 de maio de 2009

bang bang




Há um lugar para todos.

Pelo menos é o que todos CREMOS. É ensinado na escola, mas muito menos vivido em casa. No acesso real ás oportunidades, no acesso à habitação, à alimentação, transportes e recursos todos os mundos são diferentes.

Passamos a QUERER, quando crer parece não ser suficiente, e o mundo que foi ensinado ou sonhado se parece muito pouco com aquele em que se vive. Na verdade, as insuficiências geram para além da fome, uma espécie de esturpor que inaugura a dor para além da dor, a marca da necessidade transformada em revolta, decepção, desistência e não raras vezes em obsessão febril de submergir do pântano.

Na infinita bondade e luminosa distância tudo é relativo.

Na pele física e psíquica desenham-se marcas de vidas que de tão pouco atraentes e autónomas, para não dizer hostis e odiosas, correm o risco de se tornar, quanto muito, um case study - na melhor das hipóteses e não na plena possibilidade de livre escolha.

Tomar consciência disso é brutal. Há quem se tenha envolvido nessa realidade e nela se instalou, ombro a ombro – no lugar que acreditava ser o melhor – o seu! Agnes Gonxha Bojaxhiu – Madre Teresa de Calcutá, trabalhou o que considerou ser a sua vocação e viveu no meio dos mais pobres e tratou dar voz às suas causas. “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota” dizia. Todos parecem ser úteis na sua posição.

O respeito pela vida, a comunidade, o civismo, são experiências que nos unem na construção do mundo e que nos permitem a exploração do potencial em cada um de nós.

Insisto que se pense o conceito de construção, quem, como, para quem e por ai fora. Creio ser necessário rever conceitos como investimento, hierarquia, trabalho, esforço, criatividade.

Por último, uma sugestão – La haine, um filme de Mathieu Kassovitz, que no primeiro impacto me repugnou pela brutalidade, pelas tensões e pelas rupturas e me fazia a cada momento querer afastar daquela realidade “que não devia existir”. Hoje percebo que havia “ghettos” dentro de mim de tal modo opressores e oprimidos que me impediam de ver de forma crua a vida e de conviver com as diferenças que em mim não conseguia tolerar.

Há partes que são para morrer, outras para defender, com garra!
E se vi o filme em grande parte se deve à minha amiga pistoleira e bandida Catarina F. que nunca tinha medo de nada e odiava montes de cenas …. Bang, bang with lot´s of love

3 comentários:

catizzz disse...

Eu aprendi em casa que há lugar para todos de forma muito mais estruturada do que na escola. Porque foi sempre um pressuposto vivido e sentido pela maioria dos elementos da minha família. Acho que foi mesmo na escola que me apercebi que na realidade somos todos iguais, mas que há sempre uns mais iguais que outros...
Sempre fui fascinada pelo lado invertido da vida, pelo "dark side of the moon" como na música do Pink Floyd. A ideia que todos nós podemos ver a nossa vida invertida, e que em determinadas condições passamos a ser o "outro",
está muito presente em mim por tudo aquilo que a vida me foi dando e tirando. Esse foi talvez o maior presente que recebi até hoje. A partir do momento em que "outro" somos nós também, abrem-se portas ao diálogo, à compreensão porque o medo deixa de existir.
A questão é, após esta revelação, como nos posicionamos? Seremos mais Luther King ou Malcom X? Oferecemos a outra face ou fazemos a revolta? Os meus instintos vão claramente na direcção da acção e da revolta. Mas lá se respira fundo, conta-se até 1000000000, pensa-se no Ghandi e afins e coisa anda.
Gostei muito deste post. Tens que me apresentar essa amiga. Parece-me uma tipa muito porreira!

Ricardo Castro disse...

Aqui está um enorme desafio.

Primeiro: tomar consciênia de nós, das nossas marcas.

Para fazer delas o que queremos, o que cada um considera melhor para si e para os que o rodeiam. Mas assumindo sempre, de acordo com o que dizem as palavras do Artur, que essas marcas são as cicatrizes que desenham a nossa personalidade.

Seja o desenho feito pelo trauma da experiência vivida num tempo, seja o desenho feito pela, tantas vezes violenta, tomada de consciência do quão marcante foram essas vivências antecedentes.

Por tudo isto a identidade nunca é artificial, como muito imputam àqueles que assentam a sua acção na racionalidade, na consciêncialização, ou no controle/manipulação do nosso destino.

É uma ilusão, isso sim!

Também é falsa a ideia de que alguém vive sem estados d`alma. Seco. Linear. A construção da identidade é sempre um processo recursivo onde se apaziguam certas dores, quando simultaneamente construimos barreiras que nos impedem de fluir com os estímulos. Exigindo de nós a força: a intensificação da nossa reacção perante as coisas e os outros.

Os extremos, onde se encaixam definições, enunciados, filosofias, são úteis porque tornam as situações claras. Mas apenas definem tendências e/ou fazem ressaltar aspectos marcantes.

Mas são sempre redutores da riqueza de cada um. São sempre também uma barreira que nos impede de olhar o outro na sua totalidade.

Somos sempre qualquer coisa de intermédio. E é sobretudo perante a diferença quão demonstramos que somos iguais.

A natureza humana não é produto da arte humana. Jamais será. Nem é passível de ser apreendida pela arte humana.

Mas as relações são.

A construção, no que ao ser humano diz respeito, é sempre um jogo de relações. Estabelecer relações. Aprofundar relações. Viver relações.

No topo da hierarqia do actor social deve estar a capacidade de estabelecer, aprofundar e viver relações. Permitindo com isso que a sua envolvente cresca e se desenvolva, colocando-se no centro dessa espiral edificante e, assim, crescendo com ela e com a sua envolvente.

Cresce-se a dizer sim e cresce-se a dizer não. Mas só podemos dizer sim ou não a partir das questões que nos colocam as relações.

Ricardo Castro disse...

É por isso que sempre gostei de gente de peito aberto.

Gente que investe. Que se envolve.

Pessoas que se relacionam profundamente com as coisas.

Mas não se agarram e elas, não se agarram a identidades, não procuram lugares para pertencer.

Pessoas que são e vão simultaneamente.

Pessoas que fluem com a vida.

Com diz Sérgio Godinho: "Dancemos no Mundo"!