sexta-feira, 1 de maio de 2009

Bom senso, senso comum e paixões

Bom senso é uma característica de personalidade que influencia a forma como abordamos as questões que surgem no nosso quotidiano, senso comum é um tipo de conhecimento alicercado no que é óbvio na sabedoria colectiva. Muitas vezes são noções que andam irmanadas, em tantas outras é bom que não estejam.

Considerar que é de bom senso estar sempre de acordo com o senso comum é o mesmo que dizer que é bom estar sempre de acordo com as maiorias. Um espírito desses deve ser mandado e jamais deve chegar a lugares de chefia. Nomeadamente, no contexto cultural em que vivemos, no qual o risco, a inovação e a aprendizagem são factores fundamentais na gestão seja do que for: empresas, associações, fundações, famílias, religiões, amigos, escolas, etc. Portanto, nos nossos dias ter bom senso deve ser independente do conhecimento do senso comum. Mais: o bom senso é capaz de compreender o senso comum, e aproximar-se dele quando fizer sentido, num dado momento e para um contexto específico. Mas quem assenta demasiado as suas escolhas diárias no senso comum dificilmente terá a liberdade para ponderar novos aspectos, para incluir novas e melhores ideias na sua acção, nomeadamente sempre que for confrontado com a necessidade de improvisar. E a capacidade de improvisação é cada vez mais solicitada pela nossa cultura.

Só uma visão empobrecida de liberdade é que priveligia a associação entre o bom senso e o objectivo de viver de acordo com o senso comum. As culturas fundamentadas nessa visão serão sempre conservadoras e dificilmente evoluem com a sua envolvente.

O bom senso também não deve ser encarado como um adversário da paixão. Pelo contrário, as emoções orientam as nossas escolhas e podem ser verdadeiros impulsionadores da racionalidade. As paixões dão-nos uma orientação duradora e impede-nos de viver ziguezaguiantes perante um ambiente complexo, diverso, cheio de oportunidades interessantes. Permitem-nos ver o futuro, assente em ideias, projectos ou visões. Por outro lado, como nos explica Reymond Boudon, o bom senso é a capacidade de em cada momento suportar uma ideia num "...sistema de razões suficientemente convincente para se impor e mais convincente que os sistemas de razões propostos pela defesa de asserções divergentes. (em O Relativismo)". É no decorrer dessas trajectórias, envolventes, que iremos alimentar o nosso conhecimento: lá se expressará o senso comum e muitos outros aspectos. Será em cada uma dessas experiências, profundas, que ganharemos densidade e dimensão. A paixão dá-nos capacidade de investir, exige-nos isso.

E por isso defendo que devemos encontrar várias paixões ao mesmo tempo - que se traduzirão numa ligação forte a várias razões, sobre as quais poderaremos o nosso quotidiano. Dessa forma preservamos o bom senso e mantemo-nos apaixonados por várias coisas da vida.

5 comentários:

catizzz disse...

A propósito do teu post, lembrei-me de uma história sobre bom senso que aconteceu há uns tempos no meu trabalho.
A nossa chefe pediu a um colega que construísse um novo formato de relatório mensal uniformizado para ser utilizado por todos os técnicos do nosso sector. Na reunião de equipa em que o colega apresentou o novo formato de relatório, com powerpoint e tudo, o slide final dizia: "em caso de de dúvida procurar um colega com bom senso".
Como é óbvio a frase originou um enorme burburinho na sala e muitas piadas sobre o assunto nos dias seguintes. Sugerimos que os colegas com bom senso passassem a andar identificados, a instalação de detectores de bom senso nas instalações, etc.
O autor da frase, já um pouco farto de tantas piadas, afixou um papel na zona de refeições que dizia: "É difícil encontrar pessoas com bom senso. Normalmente são aquelas que nos dão razão".

Ricardo Castro disse...

Não compreendi a "moral" da história.

catizzz disse...

A "moral", se que ela existe nesta história, reside no facto do conceito de bom senso ser extremamente vago. O que define uma pessoa com bom senso? Será provavelmente tão subjectivo que poderemos dizer, como o meu colega, que a pessoa de bom senso será a que mais se aproxima da nossa própria verdade...

Artur disse...

quem é o bom senso??

conheço o bon jovi o domingos bomtempo!!

mas quem é esse gajo o bom senso? trabalho ctg cat!!???

Ricardo Castro disse...

É curioso que na argumentação para diminuir a ideia de bom senso ambos procurem uma definição. Essa sim seria uma forma de procurar impôr uma maneira específica de estar ou pensar. Posto assim também eu repeliria esse conceito.

A mim não me interesse definir pessoas, mas formas de estar com as quais procuro contruir relações preferenciais. Existe lugar para todos, mas nem todos podem fazer parte do meu lugar.

O bom senso é ambíguo e deve continuar a sê-lo. Porque tem de se manifestar de variadas formas.

Bom senso não é apaziguar mas serve para gerir conflitos; não é manter tudo na mesma, mas é capaz de acompanhar aqueles que ficaram "para trás"; não é ficar impávido e sereno, mas também apreciar o que se pode fazer com esses estados de espírito.

O bom senso é uma forma de estar que serve quem pretende ser capaz de conciliar um conjunto cada vez mais elevado de ideias, factos, pessoas, provindos de inúmeros domínios. É a capacidade para fazer evoluir todo uma envolvência. Daí ter partido da distinção entre bom senso e senso comum.

Mas, contudo, são os resultados no âmbito cultural que definem quem tem bom senso, e isso não se define aprioristicamente, nem é universal, nem se repete intemporalmente.