Existe desenvolvida essa sensação de se ser semi-deus em muitos domínios da nossa sociedade. Esse é um dos maiores factores de individualização do trabalho. Mas Portugal já não é uma sociedade de monopólios, nem económicos, nem culturais. No Portugal contemporâneo convivem e competem duas realidades culturais cujos fundamentos são opostos. A mais estabelecida está representada na ideia de que os cargos fazem as pessoas, a sua opositora, mais jovem, defende precisamente o contrário. Talvez estejamos a cair no erro de substituir o semi-deus da institucionalidade pelo semi-deus do mérito.
Julgo contudo que o semi-deus mérito pode ser mais democrático, porque bem aproveitado pode coexistir em todas as dimensões de uma organização. O semi-deus institucionalidade desvaloriza a participação informal e a colaboração vinda da base, do "terreno". Acontece que estes são ambos aspectos de fronteira da organização, ambos zona de contacto e experiênciação. Portanto, são a fonte da aprendizagem. Valorizar estas dimensões e dar-lhes lugar na construção colectiva é um dos grandes desafios que temos pela frente. Não basta dar lugar à discussão, é fundamental dar-lhe diversidade. Assumir plena e efectivamente a nossa parcialidade e incompletude.
Os perigos do mérito são semelhantes aos perigos da institucionalidade: o primeiro também tende a excluir, de acordo com a baixa eficiência. Onde está o erro desse pressuposto? É que uma grande pressão sobre a eficácia é normalizadora, e a normalização é um estado que segue determinados pressupostos. Contextualizados. Assentes num conjunto limitado de valores e valorizações.
Sabe a biologia que as espécies mais resilientes são aquelas que tem mais variabilidade. Porque são essas que terão capacidade de se ajustar às novidades criadas pelo ambiente em mudança. Na sociedade actual a mudança é uma condição da própria motivação dos sistemas, o que significa que, mais do que nunca, a normalização reduz a capacidade de reajustamento e, consequentemente, de sobrevivência da organização colectiva. Logo, o mérito não pode ser avaliado unidimensionalmente. Nenhum método é suficientemente abrangente, nem suficientemente perene.
No mundo de hoje não chega pensar - porque se pode cair em caracterizações totalizantes, em endeusamentos - é preciso implementar. E para tal, é essencial também ouvir, tentar, corrigir, perguntar, explicar, em suma, sintonizar com o outro e com realidade.
Contudo não deixa de ser o pensamento que faz ir mais além... É o pensamento que cria mais realidade ou novas realidades.
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
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