O ano está a acabar. Deixo neste post um mote para 2009. Julgo que será o assunto sobre o qual mais me debruçarei no próximo ano. Bom ano!
A evolução das sociedades coloca ao ser humano enormes e fascinantes desafios. Entre vários pretendo destacar os desafios à individualidade.
De acordo com Manuel Castells a preponderância social das sociedades actuais está no poder dos fluxos e menos nos fluxos do poder. Parece que sim. De facto, poder-se-á subentender nesta ideia que está a crescer uma tensão entre o desejo de se ser e as exigências solicitadas pelo ambiente, que cada vez é mais exigente. Cresce assim um sentimento geral de que é cada vez mais difícil ser o que se deseja ser, porque se assume que se tem de ser o que for necessário ser. Sendo, neste contexto, a necessidade oposto da escolha.
É fundamental referir aqui que esta tensão só faz sentido na medida em que vivemos num período de transição, no qual convivem valores do passado, cuja filosofia que prevalece é a da auto-determinação do indíviduo, em conjunto com novas pressões do mundo complexo que requerem outras formas de lidar com novas formas sociais. E esses valores surgem parcialmente contraditórios. A noção de liberdade tal como se desenvoveu aqui no mundo ocidental presume que deveremos viver a partir das nossas escolhas. Está claro que esta é a visão abstracta da coisa. Efectivamente sempre foi e será preciso lidar com os outros e com a realidade natural, respeitando em parte as escolhas dos primeiros e vivendo de acordo com as leis da segunda. Tudo isto são condicionantes à nossa auto-determinação. Salutares, digo eu.
Talvez seja essa a tendência da chamada globalização. Qualquer sociedade - para se tornar mais complexa, tal como um edifício - necessita de fundamentos sólidos. Tem de existir um núcleo de valores partilhado entre concidadãos que vai criar uma zona cuja intensidade de fluxos, de que fala Castells, é elevada. Portanto, uma zona de conflitualidade mínima.
Inclusivamente, vai-se tomando consciência de que a competição exacerbada, que isola os individuos numa lógica de cada um por si, já não é capaz de responder inteiramente aos desafios colocados pela complexidade. Na qual os problemas que se apresentam são também eles mais complexos. Acontece que a consciencialização dessa falência é um período onde surgem oportunidades para os discursos e ideologias homogeneizantes.
A análise de Manuel Castells pode servir para alertar para essa dinâmica de colectivização das identidades individuais. O indivíduo imerso nesta imensidão cultural vai sentindo que não é capaz de acompanhar todas as mudanças que lhe vão sendo exigidas, essa crescente noção da incapacidade individual oferece oportunidades para as lideranças unificadoras, ambiente esse que é propício à emergência de profetas e salvadores da humanidade. Os clamados por muito “defensores da ordem”. Estas figuras trazem com as suas mensagens claras uma sensação de ordem, de sentido das coisas, de sentido de pertença. Aconchegam porque simplificam. Acontece que isso se faz à custa da identidade, liberdade e livre-arbítrio. Criam um lugar para todos e não um lugar para cada um.
Mas esse caminho não me parece resolver os problemas da nossa sociedade. Pelo contrário, são uma traição à sua própria natureza. Procuram homogeneizar e desta forma reduzir a incerteza, complexidade e a criatividade humana. Mas estas são propriedades intrínsecas de uma sociedade rica e desenvolvida. Considero que a solução para algum sentimento de desespero, que está a ser agravado pela crise económica e social, deve passar pela conciliação entre os valores do passado com os desafios colocados pelo presente. É fundamental ensinar os indíviduos a conviver com o incerto, o pendente, o incompleto e o incoerente. Esses são os valores por onde passa a felicidade de cada um num ambiente complexo. Temos de alterar a forma como nos definimos e definimos os outros e assentar a identidade em narrativas do devir, em oposição às narrativas do essencial. Esta é, quanto a mim, a forma de libertar todo o nosso potencial em prol do indivíduo e do seu colectivo. Para tal é importante assumir a importância das nossas reservas de personalidade. O que não é visto como central na nossa identidade.
Podemos ser seres mais vastos...
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