quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Contra a visão egocêntrica da liberdade

Hoje houve greve dos professores.

Em boa medida estou de acordo com algumas das objecções colocadas por eles relativamente aos mecanismos de avaliação adoptados por este ministério. Também compreendo bem a sua frustração sempre que são colocados como os principais responsáveis pela "falta de educação" da população portuguesa. Não concordo com essa visão. Mais: discordo em absoluto com esse tipo de discurso que procura isolar um grupo profissional para o tornar mais permeável às reformas.

Também sou um profundo defensor do direito à greve, portanto, independentemente das motivações pelas quais são convocadas, normalmente sou muito cerimonioso em fazer críticas às classes profissionais que adoptam essa forma de luta. Em conclusão: alegra-me ver uma classe tão unida a defender os seus direitos, mesmo quando os considero parcialmente desadequados, como é o caso.

O que me fez escrever este texto foi o que ouvi, hoje, quando fui ao café e me envolvi numa conversa sobre a greve. Estava lá um professor a quem pedi informações sobre a percentagem de adesão e ele respondeu-me que andara pelos 90%. Foram os seus comentários posteriores que me deixaram perplexo, este professor fez críticas ao carácter dos 10 por cento de professores que não aderiram à greve. Este era o género de críticas que já tinha ouvido acerca dos professores que concordam genericamente com as políticas deste governo.

Não é o facto de se criticar estes professores publicamente que me incomoda, é o facto dessas criticas se dirigirem ao seu carácter. É verdade que isso é a democracia. Acontece que é uma demonstração de falta de espírito democrático. Retirar a legitimidade social dos opositores é democraticamente errado, seja quando é feito pelos poderes políticos ou por colegas. Esse é um instrumento comum em ditadura, o que torna estranho que num dia em que se "usa" uma das grandes conquistas da liberdade se oiçam afirmações tão pouco merecedoras dessa mesma liberdade.

Se este ambiente se generalizou entre professores, não fazer greve é por si só um acto de liberdade. A ser verdade sou profundamente defensor daqueles professores que não aderiram a esta greve.

Eu acredito na liberdade efectiva e esse bem colectivo só existe quando é assumido por cada cidadão individual, quando cada um assume que a diferença não é uma falha de carácter, nem de moral, nem de ética, de valores, de consciência, de responsabilidade, etc.

A liberdade é para todos, não se serve à medida de cada um.

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