Quando hoje fui tomar café não pude deixar de ouvir uma afirmação dita numa conversa entre dois homens. Dizia um deles para o outro: - os engenheiros é que vêm estragar tudo!
Esta frase, assim descontextualizada, não permite grandes considerações. No entanto, serviu para puxar um tema que já me acompanha à muito. A incapacidade dos portugueses confiarem uns nos outros, nomeadamente nas suas chefias (lideranças).
Vejamos:
i) é um facto que uma larga maioria de portugueses gosta de futebol, mas curiosamente falam mais sobre a arbitragem do que do jogo propriamente dito. E desconfiam à partida do árbitro. No jogo o árbitro é a figura de autoridade;
ii) praticamente todas as histórias contadas sobre a actuação da polícia concluem que a sua intenção é chatear, caçar multas, mostar quem manda. Raramente se houve uma história que diga da justiça dos seus actos. Porquê? Será que a razão é o simples facto de serem uma figura de autoridade?;
iii) no discurso dos portugueses existem políticos sérios, trabalhadores, que servem a causa pública? Raríssimo. Mas alguém acredita que realmente eles não existem? Pelo menos do discurso estão praticamente ausentes;
iv) E sobre os professores. Basta falar nas políticas sistemáticas de desautorização pública desta classe, com o beneplácito geral, para verificar como a legitimidade de mais uma figura de autoridade vai sendo sistematicamente delapidada;
v) e a justiça? O que se diz sobre a justiça e sobre os juizes no nosso país criará uma dificuldade crescente de gestão do espaço público. O recorrente sentimento de injustiça administrativo é já um sintoma grave do nosso país, mas se esse sentimento se espalha para a máquina judicial as consequências devem ser gravíssimas.
Não pretendo discutir para já se existem razões suficientes para este estado de coisas, ou se é apenas a expressão da nossa cultura neste período específico que atravessamos. Posso dizer que esta incapacidade de confiar uns nos outros, e principalmente a quem circunstancialmente exerce o poder, bloqueia completamente qualquer sociedade. É o que está a acontecer comnosco.
Julgo, com pouca convição é certo, que qualquer poder é melhor do que nenhum poder.
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
6 comentários:
Desconfio que não se trata de uma questão conjuntural mas de algo que nos acompanha desde que nos entendemos como povo, como gente, como colectivo. E houve quem, há muito muito tempo, registasse essa nossa característica. No séc. III a.c. um general romano escreve ao imperador durante a conquista da Península Ibérica: «Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!»
Não mudámos muito pois não?
Não será essa afirmação própria da cultura de desconfiança em que vivemos.
Uma das características humanas é cair no "enviesamento para a confirmação". Não será essa afirmação seleccionada para confirmar essa tese, de entre muitas outras que rejeitam ser essa uma característica portuguesa.
Não sei responder a essa questão, sinceramente. Já estive inclinado para isso e para o contrário.
Esta pode ser uma característica social que surge em fases de mal estar geral, em Portugal e noutros países.
Não sei.
Sim, provavelmente não seria necessário muita investigação para arranjar inúmeras citações contra ou a favor desta teoria. As teorias são só teorias...
A mim o que me parece, sinceramente, é que a desconfiança e o tal desgoverno nos acompanham, de facto, há muito tempo. Como uma espécie de fado que nos faz sempre realçar sempre o lado negativo das coisas.
Eu trabalho para o Estado, e no poder local. É inacreditável como nunca se consegue agradar os cidadãos. E mesmo quando agradados por algum tipo de mudança rematam sempre com um "mas"... e lá vem outro queixume.
Estou numa fase em que cada vez tenho menos certezas, mas continuo a arriscar que falamos de um traço importante da nossa identidade cultural. Talvez nunca tenha interessado a ninguém modificá-lo...
É de facto desolador fazer qualquer coisa, nesta altura, no nosso país. Mas estamos condenados a ter de o fazer. O contrário será desastroso.
Eu também estou inclinado para essa tese, mas ainda não sou capaz de explicar as suas causas.
Será que somos um povo que se sente sobrevivente e não apenas vivente? E os fados são uma forma de o expressar.
Será um traço identitário, um estado cultural para o qual evoluímos?
É a consequência de outros factores sociais endógenos e perenes, como por exemplo: lideranças com uma enorme incapacidade de enquadrar o outro como sujeito e não como objecto;
o mesmo se poderá colocar como hipótese para as todas as relações em geral, será?
Não sei, talvez um pouco disto e de outras coisas. Mas para mudar convém compreender os factores que mantém essa característica.
esta nossa argumentação tem-me feito lembrar do livro "Portugal,hoje - o medo de existir" do José Gil. Fiquei com vontade de lhe pegar outra vez...
Fico à espera de notícias dessa leitura.
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