terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Verdade e perfil cultural

Quais são os conceitos de verdade e de que forma é que determinam o perfil cultural de um colectivo?

Começo por apresentar resumidamente duas conceptualizações de verdade e depois analisarei de que forma é que cada um deles regula as relações sociais. Considero à partida que o conceito de verdade é central e determinante na forma como olhamos para nós próprios e para os outros.

Todos aderimos a um conceito de verdade, mesmo que o usemos de forma impícita - expressando-se apenas tacitamente na estrutura de pensamento. Não é exclusivo dos que têm consciência disso e/ou dos que são capazes de descrever de forma linguisticamente organizada como funciona esse processo lógico. Portanto, a verdade é um conjunto de regras lógicas que orientam toda a construção dos conteúdos mentais, nomeadamente a informação recebida no nosso quotidiano. Essa lógica pode presumir, segundo os filósofos, uma orientação absoluta ou relativa, subjectiva ou objectiva, parcial ou universal.

Arrisco mesmo dizer que a verdade é um dos principais habitantes do super ego.


Uma das formas socialmente mais relevante de dividir o conceito de verdade é aquela que separa os indívíduos que acreditam na sua universalidade dos que a assumem como sendo sempre parte de uma realidade. Esta forma separa os indivíduos capazes de acreditar apenas num conjunto de narrativas, considerando-as mais legítimas e acima de quaisquer outras, e aqueles que acreditam nas suas narrativas, mas sabem, simultaneamente, que elas são apenas a representação de uma parte da sua realidade.

E isto é diferente de cair na fórmula niilista consequente com a rejeição da verdade objectiva. Acredito que cada um, no seu posicionamento sensorial, lógico e social pode gerar verdades que correspondem com os factos. Acontece que estas verdades não são nem neutras, nem universais.

Os primeiro estão satisfeitos com as suas respostas fundamentais. E praticamente todo o seu esforço mental e comportamental em reacção aos estímulos do quotidiano reserva-se à criação de respostas que estejam de acordo com as suas crenças primárias. São criativos mas conservadores. Por um lado, vivem num mundo de confirmações, por outro, fazem o jogo constante da deslegitimação, tudo aquilo que não são capazes de confirmar é considerado ilegítimo.

Já acreditar na parcialidade das nossas representações, e viver consequentemente com essa filosofia, significa acreditar num certo tipo de ética - a da aprendizagem. A aprendizagem deverá ser a única forma de ultrapassar a ideia de que nunca conhecemos alguém ou alguma coisa por inteiro, e viver insatisfeitos mas pacificados com essa situação. A aprendizagem é a forma de ir ao encontro. Esta segunda forma é criativa e disruptiva e assume que a identidade é um processo.

Para além do mais, se a verdade é múltipla não é essencial, nem universal - e emerge de cada contexto, das experiências vividas e evolui. Nesta segunda filosofia a escolha continua a ser um instrumento social fundamental. Não "vale tudo". Contudo presume que as crenças nos conteúdos gerados nessas escolhas podem ser encaradas como consequências naturais e próprias do funcionamento da mente. Nada há de essencial nem metafísico nesse processo. Apenas humanidade. Escolhas humanas que podem ter vários motivos: inclusão, manter intacta uma estrutura ética, viver de acordo com as normas sociais, ou de acordo com qualquer visão metafísica ou religiosa. Seja lá o que for.

A crença é uma necessidade humana, não é um erro nem é uma virtude. Tudo o resto é fruto da regulação social, expressão social, diálogo social, das escolhas humanas.

Não vale tudo, é certo, mas o contrário também é verdade, também não vale uma coisa só.

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