sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

desconfiança e bloqueio

Quando hoje fui tomar café não pude deixar de ouvir uma afirmação dita numa conversa entre dois homens. Dizia um deles para o outro: - os engenheiros é que vêm estragar tudo!

Esta frase, assim descontextualizada, não permite grandes considerações. No entanto, serviu para puxar um tema que já me acompanha à muito. A incapacidade dos portugueses confiarem uns nos outros, nomeadamente nas suas chefias (lideranças).

Vejamos:
i) é um facto que uma larga maioria de portugueses gosta de futebol, mas curiosamente falam mais sobre a arbitragem do que do jogo propriamente dito. E desconfiam à partida do árbitro. No jogo o árbitro é a figura de autoridade;
ii) praticamente todas as histórias contadas sobre a actuação da polícia concluem que a sua intenção é chatear, caçar multas, mostar quem manda. Raramente se houve uma história que diga da justiça dos seus actos. Porquê? Será que a razão é o simples facto de serem uma figura de autoridade?;
iii) no discurso dos portugueses existem políticos sérios, trabalhadores, que servem a causa pública? Raríssimo. Mas alguém acredita que realmente eles não existem? Pelo menos do discurso estão praticamente ausentes;
iv) E sobre os professores. Basta falar nas políticas sistemáticas de desautorização pública desta classe, com o beneplácito geral, para verificar como a legitimidade de mais uma figura de autoridade vai sendo sistematicamente delapidada;
v) e a justiça? O que se diz sobre a justiça e sobre os juizes no nosso país criará uma dificuldade crescente de gestão do espaço público. O recorrente sentimento de injustiça administrativo é já um sintoma grave do nosso país, mas se esse sentimento se espalha para a máquina judicial as consequências devem ser gravíssimas.

Não pretendo discutir para já se existem razões suficientes para este estado de coisas, ou se é apenas a expressão da nossa cultura neste período específico que atravessamos. Posso dizer que esta incapacidade de confiar uns nos outros, e principalmente a quem circunstancialmente exerce o poder, bloqueia completamente qualquer sociedade. É o que está a acontecer comnosco.

Julgo, com pouca convição é certo, que qualquer poder é melhor do que nenhum poder.

6 comentários:

catizzz disse...

Desconfio que não se trata de uma questão conjuntural mas de algo que nos acompanha desde que nos entendemos como povo, como gente, como colectivo. E houve quem, há muito muito tempo, registasse essa nossa característica. No séc. III a.c. um general romano escreve ao imperador durante a conquista da Península Ibérica: «Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!»
Não mudámos muito pois não?

Ricardo Castro disse...

Não será essa afirmação própria da cultura de desconfiança em que vivemos.

Uma das características humanas é cair no "enviesamento para a confirmação". Não será essa afirmação seleccionada para confirmar essa tese, de entre muitas outras que rejeitam ser essa uma característica portuguesa.

Não sei responder a essa questão, sinceramente. Já estive inclinado para isso e para o contrário.

Esta pode ser uma característica social que surge em fases de mal estar geral, em Portugal e noutros países.

Não sei.

catizzz disse...

Sim, provavelmente não seria necessário muita investigação para arranjar inúmeras citações contra ou a favor desta teoria. As teorias são só teorias...
A mim o que me parece, sinceramente, é que a desconfiança e o tal desgoverno nos acompanham, de facto, há muito tempo. Como uma espécie de fado que nos faz sempre realçar sempre o lado negativo das coisas.
Eu trabalho para o Estado, e no poder local. É inacreditável como nunca se consegue agradar os cidadãos. E mesmo quando agradados por algum tipo de mudança rematam sempre com um "mas"... e lá vem outro queixume.
Estou numa fase em que cada vez tenho menos certezas, mas continuo a arriscar que falamos de um traço importante da nossa identidade cultural. Talvez nunca tenha interessado a ninguém modificá-lo...

Ricardo Castro disse...

É de facto desolador fazer qualquer coisa, nesta altura, no nosso país. Mas estamos condenados a ter de o fazer. O contrário será desastroso.

Eu também estou inclinado para essa tese, mas ainda não sou capaz de explicar as suas causas.

Será que somos um povo que se sente sobrevivente e não apenas vivente? E os fados são uma forma de o expressar.
Será um traço identitário, um estado cultural para o qual evoluímos?
É a consequência de outros factores sociais endógenos e perenes, como por exemplo: lideranças com uma enorme incapacidade de enquadrar o outro como sujeito e não como objecto;
o mesmo se poderá colocar como hipótese para as todas as relações em geral, será?

Não sei, talvez um pouco disto e de outras coisas. Mas para mudar convém compreender os factores que mantém essa característica.

catizzz disse...

esta nossa argumentação tem-me feito lembrar do livro "Portugal,hoje - o medo de existir" do José Gil. Fiquei com vontade de lhe pegar outra vez...

Ricardo Castro disse...

Fico à espera de notícias dessa leitura.