Para que não haja equívocos sobre a minha posição, não considero a dificuldade de lidar com a ambiguidade uma característica essencialista. Isso tem sido uma característica bastante humana. Todos nós, mais ou menos, enfrentamos o desconhecido e o estranho com inseguranças. O que é essencialista neste processo é a necessidade de classificar tudo entre essencial ou acessório.
Acontece que este padrão intelectual tem consequências na dinâmica social: tende a produzir comportamentos de exclusão e ideias conservadoras que acreditam que o estado hierarquizado, tal como está num dado momento, manter-se-á por longo tempo. Essa visão é fundamentada em pensamentos deterministas do tipo: as coisas são assim porque têm de ser assim.
Ora, isso é "fatal" no que concerne ao desenvolvimento, e posterior manutenção, de uma sociedade complexa. E hoje, não há produção de riqueza intelectual e económica sem uma organização social complexa. Se uma sociedade produz, de forma disseminada, descricionária e frequente, comportamentos de exclusão, como penso que acontece na sociedade portuguesa, o resultado é a produção de um tecido social fraco, pouco cooperante, com dificuldades em por em prática as novidades do seu pensamento, com dificuldades em arriscar, com dificuldades de afirmação.
E porque é que é "fatal"? Porque, hoje, o contexto em que opera qualquer sociedade está sempre em evolução. E os desafios estão sempre a mudar. Logo, a sociedade complexa presume que a própria sociedade saiba lidar com a diversidade e novidade de formas de relacionamento social, que são geradas a partir da sua própria natureza. Mas tudo isso requer uma cultura de valorização efectiva do heterógeneo: diferentes pessoas, diferentes profissões, diferentes gostos, diferentes trajectórias sociais, etc. Por isso, é uma sociedade que exige complexidade intelectual e comportamental. Mais: quem acredita no paradigma da sociedade complexa sabe que o poder é uma constituição circunstancial - quem lá está, as ideias que lá estão e as estruturas de valores que dominam estão sempre a ser substituidas por outras. Existe sempre potencial para responder a novos desafios.
Portanto, a diversidade cria espaço para a competição/cooperação entre causas díspares, e também é esse reservatório de conhecimentos, vivências e normas comportamentais, que permite alimentar novas composições, novas ideias, e fazê-las chegar ao poder, induzidas pelas necessidades sociais mais prementes do momento.
A melhor forma de ter capacidade de resposta é manter a prontidão intelectual de cada cidadão, e isso requer quantidades suficientes de auto-estima e confiança entre pares. Para tal é fundamental criar dinâmicas sociais de valorização de quem está no poder e de quem não está, por momentos. Porque amanhã serão esses que irão trazer respostas aos nossos problemas.
Na sociedade complexa exige-se uma cultura de valores de acordo com essa própria organização, e o essencialismo é demasiado pobre para responder a esse desafio. A diversidade cria ambiguidade, e a forma de lidar com ela é determinante para a vivência de cada um de nós e de todos em conjunto.
No mundo actual não há espaço para a classificação essencialista de acessório.
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
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