No passado dia 26 de Fevereiro foi noticiado um estudo no DN que avaliou os efeitos nas relações sociais das formas de comunicação via internet, nomeadamente o Facebook e o Twitter. Diz o estudo que irão alterar as sociedades porque estão a alterar o nosso cérebro. As próximas gerações terão: “menos capacidade de concentração, mais egoísmo e dificuldade de simpatizar com os outros e uma identidade mais frágil”. Este estudo foi apresentado como um alerta. É isso que eu contesto.
Porquê um alerta, porque é que não é uma análise, simplesmente. Por exemplo, como é que se pode concluir que os indivíduos no futuro serão mais egoistas?
Creio que essa visão sofre de miopia. Em parte pela dificuldade em fazer previsões sem aceitar a imprevisibilidade do futuro. Por outro lado, porque demonstra que não estamos abertos à conversação com outras formas de ver o mundo. Quando se avalia o futuro da ética ou qualquer outra coisa existem sempre quatros dimensões em análise: uma ética do presente e um tipo de relacionamento social associado e uma ética no futuro e também um tipo de relacionamento social associado. Estas duas últimas são frequentemente ignoradas. E são apresentadas, implicitamente, como algo que se irá conservar tal como está. Assumindo que no futuro a ética será igual, com as mesmas características do presente. Isso pode estar errado, "O mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo do hoje.”
Portanto, qualquer previsão terá de contemplar vários cenários possíveis. E aqueles acontecimentos que estão mais longe da nossa lógica são os mais importantes de antecipar, porque menos preparados estamos para os enfrentar. E de os aceitar. Para isso é necessário imaginação e capacidade de lidar com o ambíguo. É a partir deste que se “salta” de um estado lógico, profundamente sentido como normal, para um conjunto de estados lógicos, plurais, abertos a vários cenários. Assim é possível manter uma identidade, mantendo uma capacidade de diálogo com várias outras individualidades, culturas, ...
A ética, ou a falta dela, tal como fala o estudo pode não ser um problema no futuro. Talvez não seja sequer uma questão. Porque a estrutura de relacionamentos e a ética, que domina hoje a nossa cultura, pode evoluir, posicionando-se num outro estado lógico qualquer. Tal como é diferente a ética e a estrutura de relacionamento associada noutras culturas do presente.
Para além disto, este estudo fala sobre um assunto muito interessante.
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
1 comentário:
Já agora, estas ideias foram roubadas e adaptadas do autor sobre o qual versou a minha tese de mestrado: Thomas Kuhn.
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