Frase 1ª: "Os preservativos não são a resposta na luta contra a sida. Na verdade, eles agravam o problema."
Frase 2ª: "É uma crise causada, fomentada, por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis"
A primeira afirmação é do Papa. Foi muito falada. Indignou muita gente e bem. E é de facto espantoso, mas não inesperado, como alguém com tanta responsabilidade use o conhecimento científico desta forma. A ciência já está a reagir através de uma das publicações mais prestigiadas do mundo na área de medicina, a Lancet. Esta revista exige que o Papa se retracte das suas declarações. (ver http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1371147&idCanal=11)
A segunda afirmação é tão chocante como a outra. Foi há muito pouco tempo que rebentaram guerras mundiais, num período em que todas as pessoas eram classificadas por traços físicos. A ciência desenvolveu uma discipina que classificava toda a gente pelas suas características físicas e associava-as a tendências para o crime, para o alcoolismo, para uma inteligência reduzida, a certas profissões. Foi uma forma terrível de racismo(Sobre este assunto ler "A Guerra do Mundo" de Niall Ferguson). O ódio criado aos judeus e a outras culturas surgiu da repetição deste tipo de afirmações, ditas continuadamente e por um longo tempo, associando-os a tudo o que acontecia de mal na sociedade alemã e noutras nações.
Será que esta afirmação terá o mesmo tratamento nos media, será que indignará tanta gente como a primeira afirmação.
Eu sinto-me igualmente ofendido por ambas. Fico à espera dos desenvolvimentos...
Mas avanço uma hipótese: por ser quem disse, uma figura simpática aos meios intelectuais europeus, a tolerância vai ser muito maior. Vamos ver...
A declaração: http://economia.uol.com.br/ultnot/multi/2009/03/26/04023268CCC18326.jhtm
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
7 comentários:
Na verdade e como disse a indignação deveria ser sobre as duas frases, mas a segunda é fundamentalmente estúpida e despropositada.
A primeira é bom rigor é a prova da falta de evolução, capricho e orgulho da igreja., mas a do presidente Lula é puro e simples racismo!
Dois casos do chamado "Ups! Fugiu-me a boca para verdade!"
De qualquer forma, simpatizo muito mais com a figura do Presidente brasileiro do que com o outro senhor que acho verdadeiramente assustador, em todos os sentidos.
Mas sim, são ambas declarações indesculpáveis.
De qualquer forma, e ao contrário do companheiro que assina o 1º comentário, o racismo do Lula é mais compreensível do que a estimulação ao genocídio do Papa! Até porque o Papa é mais ouvido que o Lula. E é um líder espiritual. E disse isto em África. Onde milhões de pessoas morrem do VIH/SIDA, ficam orfãos à conta dela, etc, etc, etc. Onde persistem mitos surreais em relação ao preservativo justamente por causa da acção da Igreja. É vergonhoso, o Papa devia ser preso.
Quanto ao outro, a afirmação acaba por vir atrasada, só isso. Há umas dezenas de anos atrás faria todo o sentido e ele teria razão. Hoje em dia é indesculpável. Mas suporto-a melhor, porque lhe entendo uma origem. A afirmação do Papa é baseada na mais pura hipocrisia de uma das, senão a instituição mais nojenta à face da terra.
Compreenderia melhor a tua posição se a justificação fosse do tipo: gosto mais do Lula e não gosto do Papa, desculpo o Lula e não desculpo o Papa; ou sou simpatizante das ideias sociais e políticas do Lula e rejeito a visão da igreja católica, por isso, sou mais tolerante com o Lula do que sou com o líder da igreja.
Eu não me revejo em nenhum deles; rejeito em absoluto ambas as afirmações; acho ambas muito perigosas. E reflectem de alguma forma uma parte daquilo que representam.
A história não deveria ser usada para dar razão a quem não tem razão, mas pode servir de explicação para compreendermos a textura dos acontecimentos.
Os políticos também são líderes espirituais, e o Papa também é um agente político.
O número de ouvintes pode dar uma medida da perigosidade de cada um deles, mas não compreendo como é que pode servir para pesar na interpretação que cada um de nós, individualmente, faz sobre as suas afirmações. Podia ser o meu vizinho a fazer essas declarações e eu consideraria-as igualmente deploráveis.
É incompreensível que consideres a Igreja Católica mais perigosa do que as religiões que condenam pessoas à morte porque têm opinião, como acontece com Salmon Rushdie, que apredrejam gente na rua, que não dão direitos às mulheres, etc.
A verdade é que a Igreja não é o Papa, tal como os fanáticos muçulmanos não são a totalidade da religião muçulmana.
Eu não disse que a Igreja Católica é mais perigosa que outras religiões. Disse "(...)uma das, senão a instituição (...)".
E não posso concordar quando dizes que se fosse o vizinho do lado era igualmente grave. Ninguém quer saber do teu vizinho do lado, o que acha ou deixa de achar. As declarações do Papa são mandamentos para milhões de pessoas que correm alegremente para a morte, mas livres de pecado. Mas isso não interessa nada, afinal, depois ganham o Céu...
Tens razão, não disseste "perigosa" disseste "nojenta", o que é, reconheço, substancialmente diferente. Peço desculpa por esse engano.
Eu, pelo contrário, considero-a perigosa. Considero perigosas todas as entidades organizadas e vocacionadas para estabelecer a unicidade de pensamento.
Eu sei que a responsabilidade do Papa é completamente diferente da do meu vizinho. Sei que um tem milhões de pessoas que o seguem e o outro não. Mas isso também é válido para o Lula.
O que eu quis dizer é que as afirmações são igualmente deploráveis, sejam ditas pelo Papa, Lula ou pelo meu vizinho. E a opinião que farei sobre o Papa, enquanto pessoa, é igual àquela que faria se tivesse sido o meu vizinho a proferí-las.
Existe a pessoa e existe a intituição que ele representa. Não gosto da pessoa, e da instituição tem dias. Mas reconheço-lhe vários méritos.
De qualquer forma a frase foi dita fora do seu contexto, e o contexto neste caso minimiza, não retira, a gravidade das afirmações. O Papa queria dizer que não é possível fazer uma intervenção em África apelando, exclusivamente, ao uso do preservativo. E com isso eu até concordo. Mas também não acredito que essa seja a única abordagem usada pelas ONG`s e estados que operam em África. Esse pode ser o primeiro erro do Papa - transmitir uma ideia errada sobre os métodos usados para reduzir o impacto da Sida nesse continente. E isso pode ter consequências enormes.
Também é nesse contexto que ele afirma que o problema pode ser agravado pelo uso do preservativo. Essa parte da afirmação é também grave. Porque não fica explícito quais são as causas do agravamento. E uma entidade com as responsabilidades do Papa não pode ser tão ambíguo. Ainda mais quando é conhecida a sua posição relativamente ao preservativo.
Agrava-se relativamente ao uma situação idealizada, na qual todos os Africanos respeitariam as regras de conduta sexual da igreja? Agrava relativamente à situação actual? Não sei.
São estas as razões que me levam a considerar as igrejas perigosas, porque não respondem às próprias questões que colocam. Consideram-se importantes o suficiente para bastar enunciá-las.
Peço desculpa novamente, de facto não disseste o que eu disse que disseste. Erro meu.
Não tens nada que pedir desculpa. É um hábito antigo perder a razão por me deixar levar por emoções fortes (positivas ou negativas). Por isso, nunca concorri a um cargo público nem pertenço a qualquer instituição religiosa... Mas tenho vizinhos.
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