Os portugueses têm feito escolhas. Mas parece-me que a grande maioria dos nossos concidadãos não valoriza convenientemente essa ferramenta da democracia.
Porque fazem escolhas não significa que as valorizem, significa apenas que o contexto político e social dá espaço para que essas escolhas sejam feitas. Uma grande parte dos portugueses escolheram queixar-se. Pensam sobre a sua vida e queixam-se. Isso é uma escolha. E é uma escolha com profundas consequências. A sua expressividade tornou-se simultaneamente arrogante e passiva: ao avaliar o comportamento dos outros, cheios de impaciência e intolerância, tornaram-se arrogantes; ao fazê-lo sem assumir consequências políticas e sociais dessa expressão, que é o dever de quem sabe e é isso que apregoam publicamente quando julgam e se queixam dos outros, ficaram passivos.
Para muitos isto deve-se à herança do passado. Concordo com essa posição. Durante muitos anos "fomos" proibidos de expressar as nossas inquietações e propostas publicamente. Foi também proibida o direito de associação, o que feriu concerteza a capacidade de organização social, que deixou e deixa um lastro na nossa vivência cultural neste período democrático.
Digamos que essa explicação é certa, mas não pode ser razão para assumir a imutabilidade da nossa cultura. Todas as sociedades têm capacidade de regeneração. De assumir rupturas. Ora, essa disposição "exige" que se olhe para o futuro. Olhando para o que fomos sem nostalgia, e também não como uma fatalidade. Parte desta ruptura depende de um processo de revalorização da cultura portuguesa, que demora tempo e exige muito diálogo. Exige a mudança de muitos comportamentos individuais. Mas é possível do ponto de vista governativo oferecer às pessoas maior capacidade de gestão do seu destino. Assumindo que isso gerará uma valorização social da escolha.
Começemos a valorizar a escolha: deixemos que os pais escolham as escolas para onde gostariam de levar os seus filhos; deixemos que cada pai escolha o nome que quer para o seu filho; assumamos que as obras particulares não têm de ser autorizadas pelo estado; deixemos as famílias e as localidades escolherem parte dos programas escolares; liberte-se parte do dinheiro dos impostos para as autarquias; aumentem-se as funções das juntas de freguesias; desenvolvam-se políticas para regenerar o funcionamento da universidade privada; reduza-se o âmbito dos concursos públicos e responsabilize-se os altos quadros do estado pelas suas escolhas; pare de se proteger de forma tão intensa trabalhadores, empresários, entidades estatais; rejeitem-se discursos fatalistas e unitários dos políticos; etc...
Uma democracia é mais do que um regime político quando a vida social e política desenvolve-se no sentido de aumentar as opções dos seus cidadãos.
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
8 comentários:
ricardo ao poder!
as eleições estão pra breve ....
:)
Pois Ricardo, assim só mesmo se alguém como tu chegasse ao poder. E mesmo assim...
O queixume popular é uma tradição de quem entregou, há muito, o seu destino a outros (religião, Estado, destino/fado). Para que o Estado se torne menos interventivo e se possa valorizar as escolhas do cidadão, cidadãos e Estado têm ainda um longo caminho pela frente. Tenho trabalhado, há já alguns anos, em metodologias participativas. Aliás, toda a equipa técnica com quem trabalho se rege por essas metodologias. A participação e o emporwerment comunitário é fascinante. Mas o facto é que nos deparamos, salvo raras excepções, lidamos com obstáculos sérios a este trabalho, sobretudo porque a participação comunitária requer a existência de uma massa crítica (de forma construtiva, não na base do queixume, claro!)que não existe na maioria das pessoas. Porque continuamos a ser educados para outra coisa que não o sermos agentes activos e transformadores da nossa realidade. E aqui surge a pescadinha de rabo na boca: mais Estado porque não há maturidade cívica. Sem maturidade cívica, o estado insiste em medidas protectoras e bloqueadoras do crescimento cívico, "esquecendo-se" de preparar as novas gerações para a tal maturidade cívica, e por aí fora...
Por isso, as medidas que referes para reduzir a intervenção do Estado, não podem resultar aqui e agora. Afinal, continuamos a ter crianças de 5 anos a cozer sapatos e todos os dias por meia dúzia de cêntimos. Violamos direitos humanos básicos.Temos níveis de corrupção a lembrar a América do Sul e os os trabalhadores tentam sobreviver numa sanduíche de modernidade laboral norte europeia e um tecido empresarial obsoleto e ganancioso. Da justiça, nem vale a pena falar. As políticas sociais como o Rendimento Social de Inserção, apesar de importantes, são trabalhadas de forma surreal e têm metodologias de aplicação que roçam a esquizofrenia. E podia ficar aqui o dia todo...
Neste momento, acho que não nos interessa pedir menos Estado, mas um Estado diferente. Um Estado que pense a médio/longo prazo. Que aposte na educação, na cultura, na preparação cívica dos cidadãos. Que trabalhe a auto-estima do país. Que trabalhe, basicamente. Que cumpra a sua função!
Não defendo menos estado. Defendo, isso sim, um reposicionamento do estado. Sair ou diminuir a sua acção em certas dimensões da sociedade e aumentar noutras.
Menos estado no ensino superior, mais estado no ensino obrigatório; Mais estado no desemprego, menos estado na promoção de emprego; mais estado na rua, menos estado no gabinete; mais estado local, menos estado central; mais estado a pensar, menos estado burocrático; mais estado na planificação, menos estado na execução.
As pescadinhas de rabo na boca e sociedades assustadas geram cautelas tais que qualquer mudança aborta e o resultado é um recuo para o estado inicial de pescadinha de rabo na boca.
Não acredito na mudança se não for abrupta. Com falhas, algumas muito estúpidas. Mudar é aprender. Não é fazer aquilo que já sabemos fazer.
Temos de vencer o medo.
Não acho que devam existir "cautelas", pelo menos não como as que referes. Além disso, há movimentos em curso, há já muita gente a trabalhar as questões da participação, no terreno com as pessoas. O que precisamos é que o braço do Estado abrace também estes movimentos. O que não acontece porque os políticos deste país não têm eles próprios, qualquer noção de dever cívico. Movimentam-se em função de sondagens e estatísticas porque é preciso é ganhar eleições. Trabalha-se a fachada, nunca a estrutura, o conteúdo.
Em democracia se os políticos são maus, e se isso é recorrente, a responsabilidade é de todos. A escolha é nossa. Os políticos são gerados a partir da sociedade portuguesa.
Eu não os acho todos maus. Nem sequer a maioria. Considero que estão lá uns que são tão maus que mancham toda a classe. Acontece o mesmo na função pública, nas universidades, etc. Isso é que é inadmissível, a perpetuação de gente completamente incompetente nos seus lugares. Como o funcionamento institucional é solidário estes poucos estragulam toda a instituição.
O que é preciso é fazer discursos, implementar práticas e adoptar medidas que façam a descriminação sobre quem está apto para o lugar que ocupa. Só essa descriminação permite dar informação e critério para serem tomadas decisões justas. Falta por isso transparência e densidade á fonte das nossas decisões.
Vejamos um exemplo do que pode ser um padrão "pescadinha de rabo na boca". O ministério da educação começou uma reforma, em certos aspectos profunda. Hoje, no DN, na página 14, surge uma notícia que diz o seguinte: "Estudo afirma que nova avaliação dos docentes prejudicou alunos". Ainda bem que há estudo. Mas este só pode ser visto como um meio de monitorização da implementação da reforma. A esta altura não pode servir de avaliação cabal dos seus méritos ou deméritos. No início de qualquer reforma existem muitos erros, muitos ajustamentos por fazer, muitas medidas por implementar, etc.
Se esta notícia for usada como monitorização é útil para a aferição da evolução da implementação e pode servir para fazer algumas correcções; se for usada para fazer política de trincheira terá um efeito destrutivo.
Conclusão: se a medida parar voltamos à estaca zero e mais um ministro será considerado um erro de casting. Conclusão nº2: a sociedade poderá continuar a afirmar que os seus políticos são maus.
E isso é voltar à pescadinha de rabo na boca.
Eu = Sociedade = Estado = nós = ...
não concordo nada contigo Artur! Deve ser a minha anarca que ande muito palpitante por estes dias! (lá estão mais o vez o estados de espírito!)
Tradução do comentário anterior (desculpem lá mas isto de conciliar os blogs com a hora de banhos e jantar não é fácil!):
não concordo nada contigo Artur! Deve ser a minha veia anarca que anda muito palpitante por estes dias! (lá estão mais o vez o estados de espírito!)
Enviar um comentário