segunda-feira, 16 de março de 2009

os ânimos estão exaltados?

Neste período de crise os ânimos exaltam-se! Em período pré-eleitoral os ânimos exaltam-se! Estas são conclusões recorrentes de muitos comentadores da nossa praça.

Mais recentemente o PS e alguns meios de comunicação exaltaram-se. Surgiram notícias em catadupa sobre Sócrates, nomeadamente na TVI, e a entourage do PS veio ao terreno defender o seu líder e atacar os meios de comunicação social. Conclusão previsível dos nossos comentadores: Neste período de crise os ânimos exaltam-se! Em período pré-eleitoral os ânimos exaltam-se! Quanto a mim essas conclusões dão a entender que a exaltação é um mal em si mesmo. E isso parece-me pobre, apenas isso.

O que existe nesta questão é uma luta pelo poder. Tem sido frequente ouvir alguns jornalistas a defender que neste enquadramento político são a única oposição efectiva ao governo. Será que essa é a sua missão? Por acaso nós estamos em Angola, na Rússia, na Birmânia? Ou em qualquer outro país onde a liberdade de expressão não é tolerada. Contudo essa retórica já prespassou para alguma sociedade civil. Infelizmente. Basta ouvir muitos professores, por exemplo, que consideram que o governo está a tentar condicioná-los na sua liberdade de expressão. Sentirem-se condicionados é que é uma barbaridade!

Por outro lado diz o dirigente do PS (podia ser outro partido), José Lello (DN, 16 Março, p. 9): "A TVI é a estação que mais abusa da liberdade de informação (...) o seu director já era useiro e vezeiro a manipular a informação quando tinha um cargo na RTP". Aquilo que este político diz não é do tipo: nesta notícia da TVI, do dia tal sobre o assunto tal, sobre Sócrates foram retiradas conclusões que estão muito para além do que as fontes informam. Nem demontra que as fontes não são credíveis. As abordagens podiam ser inúmeras. Todas democraticamente válidas. Acusações genéricas não são.

Quando as avaliações políticas são genéricas e quando as interpretações jornalísticas são demasiado criativas perde a democracia. Porquê? Porque a informação começa a empobrecer - a informação que é a base das escolhas democráticas. Eu vi muitas das reportagens da TVI e as conclusões pareceram-me manifestamente criativas (infelizmente não tenho aqui informação para fazer uma análise mais concreta), estas afirmações vindas de um político do partido do governo sugerem uma tentativa de condicionar o trabalho do visado.

O problema é que este é um problema estrutural da nossa democracia: o facto de termos um governo que administra uma máquina tentacular e uma sociedade civil que se sente asfixiada, fez desta um agente obsessivamente centrado na acção do agente considerado responsável por essa condição (tanto para dizer mal como para pedir ajuda) - o estado e os governos. Estas reacções parece-me provir desta dialéctica que persiste na sociedade portuguesa entre quem tem poder. E que os faz andar distraídos e distrair a própria sociedade civil.

Ao lado desta disputa está a uma sociedade civil que emerge cheia de qualidades, na sombra das janelas mediáticas, mas cheia de força, motivada, com ideias, competente, realista. O que falta é que os seus ânimos se exaltem. Têm de se assumir como agente da mudança. Têm de lutar pelo seu poder: o da sociedade civil.

4 comentários:

Artur disse...

A vantagem é sermos um Estado democrático mas já dizia o outro que não nos deixamos governar!

problemas com a figura paterna talvez ...

Ricardo Castro disse...

Isso significa que não existe uma confiança dos poderes na sociedade que governam, da sociedade nos poderes que os governam e na sociedade em si mesma.

E a desconfiança mina as relações, obstrui a cooperação e isola os seus agentes. Com todas as consequências psicológicas sobre o indivíduo que o isolamento provoca. Resultado: desenvolve-se uma sociedade disconexa - uma manta de retalhos, como referiste no post seguinte.

A figura paterna é o elemento de ligação. Unifica. É o elemento que mantém um certo nível de integridade - de nós connosco e de nós com os outros.

Artur disse...

vejo mais o pai com aquele que separa. a mãe seria o elemento da ligação primordial. o pai surge como o elemento estranho, o de fora, o estrangeiro, as alterações à constância.

acho que nessa medida "tá tudo à mama" e sair do conforto por mau que seja pode tornar-se um hábito

Ricardo Castro disse...

Isso sigifica que vês o estado como uma figura maternal?

Ou consideras que a sociedade portuguesa está feita numa manta de retalhos e isso deve-se à sua "figura paterna"?

De qualquer forma essas "imagens" não estão a ficar um pouco ultrapassadas? A figura de mãe e pai não estão a ser reconfiguradas? Essa visão não é uma forma de perpétuar os "papeis" para a sociedade devidos a cada género?