A sociedade contemporânea está organizada em moldes nunca antes vividos pelo ser humano. Estamos a experienciar algo de único. Após milhares de anos de evolução mental e social os seres humanos acumularam muito conhecimento. E não só pretendem mantê-lo armazenado como disponível para uso social. Mas essa acumulação acabou por tornar necessário desenvolver inúmeras especialidades. Resultado: cada um de nós ficou mais complexo e a nossa envolvente ficou mais complexa. Por outro lado, aumentaram os fluxos migratórios, comunicacionais e de produtos, e, gradualmente, as sociedades tornaram-se multiculturais. O efeito desse processo tem algo de análogo com o acto de baralhar cartas. Tudo se mistura, as zonas de fractura cultural, ética e política deixam de estar organizadas por fronteiras definidas e introduziram-se no seio das relações sociais, quotidianas. Que entraram também como fantasmas dentro de cada um de nós.
Se aceitarmos que os seres humanos são reféns das suas próprias experiências - que o olhar de cada um sobre o mundo depende muito das particularidades dessas experiências - da forma como são vividas e interpretadas - e se aceitarmos o que foi dito anteriormente, então podemos concluir que a nossa normalidade é hoje vivida num ambiente fracturado. Esse é um aspecto caracterizador e factor determinante na forma como são moldadas as nossas vidas, os nossos pensamentos, sentimentos e as nossas relações. Torná-mo-nos numa sociedade de nichos cognitivos. Onde cada um vive no seu. E não poderia ser de outra forma: ninguem é capaz de ser totalidade quando a totalidade é imensa.
No entanto, estas características da sociedade contemporânea pressionam o nosso meio interno para também se inter-culturalizar. Hoje é mesmo impossível organizar a vida assente num conjunto de valores coerentes e essenciais. A actual rejeição filosóficas dessas éticas e a emergência do pós-modernismo, relativista e pluralista, é a reacção natural de uma parte da sociedade que procura soluções para estabelecer uma convivência social mais sã, mas que conserva a vontade de fazer parte de uma sociedade do progresso. Esta será uma nova fase, mais humanista, que se centra na ideia de que são precisos todos para continuar a manter vivo esse nobre objectivo.
No passado, quando na sociedade proliferavam as rotinas de pensamento e comportamento e quando as sociedades estava “arrumadas” no espaço, estas éticas eram adequadas. Mas essas éticas convivem mal com a diversidade. Os indivíduos que se governam por esses pressupostos vivem hoje numa tensão brutal. Vivem sobre uma pressão desintegradora quotidiana. E alguns desses tornam-se brutais, por vezes passivos, por vezes violentos, demasiadas vezes brutais. A expressão “perda de valores” muitas vezes citada é definidora de um sentimento que gera uma enorme frustração e desânimo. Infelizmente ainda há uma mancha de gente, da base ao topo social, que não conseguiu trazer para um lugar relevante do seu cosmos interior toda essa diversidade que não reina mas já convive no seu mundo interior e exterior. Este últimos são simultaneamente os mais agredidos e, paradoxalmente, tornaram-se os maiores agressores.
Não podemos continuar a pretender ser universais. As éticas pluralistas ao valorizar a diversidade permite encará-la como algo benéfico. Mas esse é só o primeiro passo para conviver de forma pacífica, curiosa, com o diferente e com o estranho. São simultaneamente éticas que não pretendem definir a priori trajectórias de vida, nem identidades. Procuram dar um balanço novo à sociedade: promover a convivência entre o nicho e os outros. Esses outros tantas vezes incompreensíveis numa primeira impressão. A sociedade necessita de fazer essa revolução cultural de modo a reverter esse sentimento de perda que se mantém obstinado e a travar a expansão dessas vidas.
Há todo um mundo interno que pode ser explorado, que faz de nós seres suficientemente imensos, cheios de recantos, de lugares por conhecer, fonte de criatividade, onde vivem espelhados e aprisionados os outros. Os outros, estranhos, que já vivem dentro de nós.
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
1 comentário:
Que grande divagação, eu já libertei o meu.«
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