Caro, num post anterior chamas bem a atenção para o período pós 25 de Abril.
É já um consenso, a constatação de que os países que sofrendo as grandes guerras tiveram oportunidade de se reconstruir, de tal modo, que geraram não só riqueza, como bem-estar social. Também nós, temos uma democracia recente e acredita-se que talvez 30\40 anos, sejam suficientes para dissipar as antigas motivações politicas que, naturalmente, incendiaram e continuam a ditar rumos como ponto de orientação num horizonte social que se quer a par da restante Europa.
Há nostalgia, timidez, inexperiência, rasgos de lucidez, iniciativas, e por ai fora. A habitual variedade que se assinala perante a incomensurável imensidão do mundo, de nós própriOs, na medida exacta que simplesmente desconhecemos! Contudo, sinto que comO povo somos uma manta de retalhos. É apenas uma impressão pessoal.
Realizámos ainda muito pouco, acerca da nossa história mais recente, no que toca a produção literária e histórica, estudos sociológicos, ensaio. Igualmente no plano artístico. Insisto que a formação pessoal, será tanto mais rica quanto menos funcional, mas mais HUMANA.
A minha hipótese é a de que temos que fazer a digestão à nossa medida, uma digestão de tudo aquilo que nos tem alimentado ao longo dos anos. E crescer com base nesses nutrientes. Uma teoria de Desenvolvimento Social. Não adianta dizer a um obeso, a um guloso, a um anoréctico o que há-de comer. Pode-se dizer o tempo do come e cala já terminou há muito, para uns – outros nem tanto. Mas mudar uma dieta não é simples e implica uma adaptação gradual e orientada. Há dias em que não se come, outros que se come o dobro, outros que convidamos amigos, outros em que se vive isolado … a pensar que volta dar à vida. È claro que não vou teorizar vagamente sob o infinito de possibilidades. Mas reflectir sob a nossa condição implica termos consciência de nós, e que melhor espelho e possibilidade de crescer por dentro e por fora senão através do exercício quotidiano da nossa escolha, como cidadãos duma comunidade. as decisões - são abruptas, intensamente pessoais, mas o processo gradual e resultado do visivel e do invisivel.
Temos um tempo que nos antecede e que devemos considerar, quer o desafiemos ou respeitemos.
Tudo que se faz tem uma comunidade por referência e necessidade de interpretação nesse nível.
O plano individual é favorecido se articulado com a dimensão colectiva e o contrário também.
Desafios actuais temos muitos, uns mais démodé – a abertura à Europa, a gestão das fronteiras; outros na berra – a falência do sistema capitalista e as suas consequências e impunidades; a governação per se.
Qual a nossa capacidade se pensar em conjunto? Regula-se na exacta medida que nos interrogamos e arriscamos acerca do que fazer individualmente e de mobilizar os nossos mais próximos.
Viver não é passar pela vida, é com que ideias e com quem se passa pela vida e o que juntos fazemos dela. E o que não sabemos, mas desejamos chama-se sonho!
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
2 comentários:
da teoria das redes sociais e das mudanças que tardam a chegar, o medo de pensar e (pior) o cristalizar da vontade de realizar/produzir, faz com que sejamos menos (mais) loucos.
Em nome da moral e dos bons costumes, tudo se justifica, mas se calhar no fim de tudo chora-se e pergunta-se com uma criança se tratasse, valeu a pena? Com quem estive? O que me importou? As prioridades? O que defendi? O que influenciei?
Sinceramente, vejo o ser humano com muito medo e alimentado pelo medo. Seja da doença, da segurança, da economia e da globalização… Hoje, enfrentei o medo de fazer um post, mas sabes que mais entendo o teu “dream” e não sei se da nossa proximidade física de todas as noites, poderia ter sido eu a descrevê-lo. Subscrevo.
Começo este comentário assinalando a participação de Jones: que seja duradora! Bem vindo ao bisturi.
Concordo contigo Artur. O tempo é um dos aspectos cruciais. Mais: os sonhos são aqueles desejos que não têm fim à vista. São os pensamentos que não têm data marcada para acontecerem.
Faltam sonhos aos portugueses, porque lhes falta temperança para se desligarem da realidade, falta-lhes paciência porque não acreditam no poder simultaneamente temperador e mobilizador do sonho. Falta-lhes portanto viver a dialética do sonho na relação com eles próprios.
(Eu sonho! E muito...)
Muito do que consideramos que deveria estar a acontecer no nosso quotidiano não poderia de facto acontecer. Não houve tempo para que elas acontecessem. Só o tempo permite que haja, como tu disseste e bem, produção de qualidade, em quantidade suficiente, no período recente da nossa democracia.
Só o tempo permite que esses modelos surjam em contraste com os modelos do passado. Moldados pela ditadura, pela divisão em dois blocos, na generalidade moldados por visões maniqueístas.
Só o tempo é que permite que essa produção de qualidade atinja uma massa crítica suficiente para adquirir o "momentum" abrupto da mudança.
Mas existe uma responsabilidade individual que não pode ser descurada, e por isso eu repito o repto: há já muita gente com qualidade, com uma mentalidade renovada, com uma visão de futuro que está "calada". Façam! Organizem-se! Ofereçam-se como alternativa!
Dêem-se - à sociedade portuguesa - como opções de escolha. Façamos disto uma democracia vivida.
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