quinta-feira, 26 de março de 2009

Dúvidas

Como é que se pode organizar uma Escola/ensino que transcenda os limites gerados pela vivência numa cultura com uma identidade forte? Será possível? Ou será possível minimizar os seus efeitos?

Num mundo globalizado o ensino da inter-culturalidade é um benefício? Existe o risco de ser perderem identidades locais? Quais são?

Quais são os impactos dessas abertura para a criatividade? Liberta-a ou é um movimento que nos uniformizará?

6 comentários:

catizzz disse...

A interculturalidade, conceito usado para tudo e mais alguma coisa, é, nada mais que uma etapa do contacto entre culturas, à qual normalmente se segue, se tudo correr bem, a miscenização. Dessa miscenização sairão novas identidades culturais. Este processo é tão antigo como a existência de grupos culturais diferentes.
Defendo que as crianças e todos nós devemos ser estimulados a ter um olhar transcultural sobre todos os aspectos da nossa vida. A compreensão de como as culturas influenciam e determinam comportamentos é essencial para a compreensão do mundo actual.
Quanto a mim a globalização veio dar ainda mais importância às identidades locais. De qualquer forma, nunca consegui compreender esse receio generalizado de "perda de identidade". As identidades são construções artificiais em constante mutação. Vão-se perdendo traços vão-se ganhando outros. Sempre foi assim...
Não acredito nessa "uniformização". Pode ser uma tentação para aqueles que estão no poder, mas a humanidade sempre se alimentou da diversidade...

Ricardo Castro disse...

Concordo plenamente. E por isso não tenho receios de nenhum tipo relativamente à globalização.

Mas estas questões são frequentemente colocadas.

De qualquer forma como é que funcionará a dinâmica miscenização/indentificação num ambiente de fluxos regulares e globais. Não se fará em moldes diferentes?

Criará a humanidade uma identidade global, complementada por identidades locais fracas. Com maior capacidade de mutação?

E o diálogo entre culturas nem sempre é fácil. Não está a ser fácil: existe uma dialéctica tensa entre mundo ocidental e mundo islâmico; entre países outrora imperiais e países outrora colonizados, entre países emergentes e países com poder global. Será esta tensão uma fase da integração? Ou é um acontecimento que acabará por dar espaço para a conservação de outras culturas? que exigirá de facto novos valores de acordo com a inter-culturalidade?

E qual é o papel da escola nisso tudo?

catizzz disse...

Os fluxos regulares e globais vão originar, a um determinado nível, uma nova classe de verdadeiros cidadãos do mundo, indivíduos que terão opção de escolha em relação ao seu território de pertença no sentido afectivo. Mas esses, nos tempos mais próximos serão uma minoria. A maioria das pessoas que forma os tais fluxos migratórios vive e trabalha em condições que na maioria das vezes, não lhes permite apropriarem-se verdadeiramente da "cultura de acolhimento". Esse fenómeno dá origem, frequentemente à reconstrução de identidades de origem, que renascem de forma radical. É uma forma de sobrevivência colectiva típica de quem é hostilizado pelo ambiente envolvente (como acontece com os ciganos há muitos séculos, por exemplo). Aqui residem grandes perigos, ainda não interiorizados pela sociedade e aos quais devemos estar muito atentos. Aliás, mais do que atentos, deveríamos estar a trabalhar arduamente, amenizando erros do passado, com uma visão objectiva de construção do futuro, tornando possível a prevenção do que se poderá tornar num inferno colectivo.
As tensões irão sempre existir, mas se bem geridas, podem servir para aproximar mais culturas distintas. O diálogo, a mediação e sobretudo, a disseminação do conhecimento cultural (e não de informações falsas, preconceitos e mitos) podem ser boas ferramentas e estão à mão de semear... haja interesse e investimento.
Na escola como na saúde e tantas outras áreas básicas da nossa vida, esse trabalho tem que ser feito. Agora. Já
Vai-se fazendo, é verdade, mas a muito custo e muito lentamente. Temos que andar mais rápido!

catizzz disse...

desculpem lá o testamento mas este tema é especial para mim...

Ricardo Castro disse...

Não pessas desculpa por teres opinião. Jamais.

Eu concordo com o que dizes, mas considero que cai no erro, muito comum, de que a agressão se faz univocamente da maioria para a minoria.

O post que escrevi sobre os "fantasmas" que nos habitam é uma proposta de reflexão sobre este assunto. Escrevi-o depois de assistir a duas palestras do congresso da CAIS. Partindo da ideia de que o "clássico" agressor é alguém que se sente também agredido. Os membros das maiorias sentem-se agredidos pelo novo, pelo estranho, pelo estrangeiro.

Sem se compreeder isso considero que os investimentos nesse domínio serão ineficazes. Os mediadores e os políticas que se preocupam com essas matérias não se devem colocar no lugar de protectores paternalista - e conheço alguns que têm essa postura.

Promover a conversação social é um trabalho que, quanto a mim, deve partir do pressuposto da equidistância.

Esse deve ser o papel de mediadores, diplomatas, e instituições com esses objectivos.

catizzz disse...

Claro! Isso sempre. Igualdade completa. A discriminação positiva só faz sentido em fases embrionárias de processos, deve ser utilizada com cautela. E sim, muita gente nesta área age na lógica do paternalismo, ao qual se junta a "caridade" e todas as atitudes obsoletas e perversas ligadas ao trabalho social.