sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

statement

O sujeito perante a ambiguidade - parte III

Vou-me deter na questão da ambiguidade e da sua relação com o futuro. Como disse o Artur: "Conceber o mundo como um espaço de dever ou espaço de devir, pode oferecer a cada um de nós horizontes ilimitados de criação e do pensamento."

Mas essa concepção só faz verdadeiro sentido quando assimilamos - integralmente - a função da ambiguidade. O futuro, aquele que vai acontecer de facto, é incerto. Ninguém tem capacidade de prever o que acontecerá de facto. Mas é possível gerir o desenrolar dos acontecimento se formos capazes de aceitar muita ambiguidade - o que quererá dizer neste contexto: aceitar e produzir muita quantidade de abstracção. (talvez aqui se encaixe a questão das consequências da hiperfuncionalidade nas funções do pensamento, será?...)

O concreto é o que acontece, o abstracto são os pensamentos simplistas que produzimos para lidar com o incerto. As trajectórias e os cenários possíveis são inúmeros, uns mais próximos do nosso quotidiano, outros completamente excêntricas a ele. É para esse universo que a abstracção é a única ferramenta útil. sustentado numa crença suficiente.

E no nosso mundo - altamente complexo - surgem com maior probabilidade e com maior frequência acontecimentos excêntricos à nossa vida quotidiana.

Eles surgem porque a sociedade complexa coloca-nos lado a lado com certos "...nichos cada vez mais vastos,..." que "...promovem e incentivam uma standartização e homogeneização de dimensões não relacionáveis e mesmo incompatíveis". É essa convivência com espaços discontínuos aos nossos que criam, permanentemente, pressões e condições para rupturas drásticas.

A sobre vivência com esse aspecto da vida quotidiana "exige" uma nova estrutura de valores, mais adequados à gestão da mudança, do imprevisível. Da relação com o AMBÍGUO.

O que é hoje ambíguo pode ser um senhor habitante no nosso futuro, com o seu lugar essencial, necessário, determinante.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

uma mensagem ambigua

Mutatis Mutandis

Qualquer desafio humano faz representar o seu actor como consciência de ser individual com referência a um grupo. A procura de soluções individuais ou colectivas mais ou menos organizadas parecem sempre surgir como formas de sobrevivência, de adaptação ao meio e de transposição/exploração das zonas de fronteira conhecidas ou de meio de contacto com os pares.

Conceber o mundo como um espaço de dever ou espaço de devir, pode oferecer a cada um de nós horizontes ilimitados de criação e do pensamento.

O mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo do hoje, são as palavras de Heraclito.

Os lugares e as pessoas, com as sucessivas actualizações ao longo dos tempos. Outrora o rio, o deserto, as viagens, as fundações, as instituições e por ai fora, como forma de organizar necessidades e implementar soluções. Formas que chegam até nós como escolas, bancos, serviços, direitos e deveres. Também as alianças, os pactos e as divisas e as suas implicações emocionais – casamentos, uniões, assistência e prazer.

Talvez, viver o tempo que cabe a cada um de nós com consciência do que somos seja anti-humano. Como se uma hiper consciência fosse letal à dimensão criativa do sujeito.

Hiperfuncionar sugere uma inibição da verdadeira função do pensamento, e a restrição de uma necessidade de expansão humana quer emocional quer funcional.

È certo que, nichos cada vez mais vastos, das sociedades, promovem e incentivam uma standartização e homogeneização de dimensões não relacionáveis e mesmo incompatíveis, pode-se dizer. Confundindo o pleno de garantias e deveres, de serviços e organização das necessidades com o que se relaciona com o humano e pessoal. Chegando ao caricato de implementar campanhas de humanização dos serviços e instituições. Como se humanos não fossemos todos nós, ou estivéssemos a funcionar à margem, ou num eventual delírio megalómano, acima do humano ou à semelhança da máquina.

O rio que Heraclito observou continua a correr tal como as suas palavras que sulcam o espaço do Pensamento Humano, permitindo lavouras modestas como a minha por exemplo.

Ambiguidade, levanta dúvida, incerteza e não raras vezes irresolução – exige antes de mais pensamento, depois capacidade e tempo para o fazer. (Os rios demoram a correr e tem correntes ocultas). Agir oferece-se como a forma mais evidente - porque visível - e aproximada de um pensamento. E desvalorizada também como se o que somos e fazemos tivesse a grande benesse pós-moderna da indiferença ou das respostas pré-feitas – a decência e a comodidade moralizante de hábitos e atitudes alimenta a preguiça chocha da sociedade.

Ambiguidade, pode também levantar as mesmas dúvidas e fazer eco em nós e por isso comunicado pela expressão critica do pensamento e emoções humanas – tratados, telas, paixões, combates, sinfonias.

Porque será que a história da arte ou da literatura, as emoções ou os pensamentos ficam sempre melhor numa moldura requintada, numa edição de luxo, numa biblioteca privada ou numa festa com glamour que no quotidiano solto dos dias?

Cá vamos escrevendo umas coisas. mutatis mutandis.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O sujeito perante a ambiguidade - parte II

Para que não haja equívocos sobre a minha posição, não considero a dificuldade de lidar com a ambiguidade uma característica essencialista. Isso tem sido uma característica bastante humana. Todos nós, mais ou menos, enfrentamos o desconhecido e o estranho com inseguranças. O que é essencialista neste processo é a necessidade de classificar tudo entre essencial ou acessório.

Acontece que este padrão intelectual tem consequências na dinâmica social: tende a produzir comportamentos de exclusão e ideias conservadoras que acreditam que o estado hierarquizado, tal como está num dado momento, manter-se-á por longo tempo. Essa visão é fundamentada em pensamentos deterministas do tipo: as coisas são assim porque têm de ser assim.

Ora, isso é "fatal" no que concerne ao desenvolvimento, e posterior manutenção, de uma sociedade complexa. E hoje, não há produção de riqueza intelectual e económica sem uma organização social complexa. Se uma sociedade produz, de forma disseminada, descricionária e frequente, comportamentos de exclusão, como penso que acontece na sociedade portuguesa, o resultado é a produção de um tecido social fraco, pouco cooperante, com dificuldades em por em prática as novidades do seu pensamento, com dificuldades em arriscar, com dificuldades de afirmação.

E porque é que é "fatal"? Porque, hoje, o contexto em que opera qualquer sociedade está sempre em evolução. E os desafios estão sempre a mudar. Logo, a sociedade complexa presume que a própria sociedade saiba lidar com a diversidade e novidade de formas de relacionamento social, que são geradas a partir da sua própria natureza. Mas tudo isso requer uma cultura de valorização efectiva do heterógeneo: diferentes pessoas, diferentes profissões, diferentes gostos, diferentes trajectórias sociais, etc. Por isso, é uma sociedade que exige complexidade intelectual e comportamental. Mais: quem acredita no paradigma da sociedade complexa sabe que o poder é uma constituição circunstancial - quem lá está, as ideias que lá estão e as estruturas de valores que dominam estão sempre a ser substituidas por outras. Existe sempre potencial para responder a novos desafios.

Portanto, a diversidade cria espaço para a competição/cooperação entre causas díspares, e também é esse reservatório de conhecimentos, vivências e normas comportamentais, que permite alimentar novas composições, novas ideias, e fazê-las chegar ao poder, induzidas pelas necessidades sociais mais prementes do momento.

A melhor forma de ter capacidade de resposta é manter a prontidão intelectual de cada cidadão, e isso requer quantidades suficientes de auto-estima e confiança entre pares. Para tal é fundamental criar dinâmicas sociais de valorização de quem está no poder e de quem não está, por momentos. Porque amanhã serão esses que irão trazer respostas aos nossos problemas.

Na sociedade complexa exige-se uma cultura de valores de acordo com essa própria organização, e o essencialismo é demasiado pobre para responder a esse desafio. A diversidade cria ambiguidade, e a forma de lidar com ela é determinante para a vivência de cada um de nós e de todos em conjunto.

No mundo actual não há espaço para a classificação essencialista de acessório.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O sujeito perante a ambiguidade

Portugal, como tenho dito e repetido, é ainda uma sociedade essencialista. Em transição, é certo. Mas a sua expressão dominante ainda é a de uma cultura essencialista.

Uma dessas características é a incapacidade de conviver com a ambiguidade. Isso significa que estamos dentro de um padrão cultural que necessita rapidamente de gerar sentido quando algo de ambíguo surge no nosso quotidiano. Seja essa ambiguidade criada por um objecto, situação, pensamento ou comportamento.

Tudo tem de ser imediatamente classificado e valorizado na categoria de essencial ou acessório. Elementos aos quais, por inerência desse processo, são atribuidos os rótulos de bom/mau ou indiferente.

Felizmente, a fase de transição já permite alguns encontros, cada vez mais frequentes, com gente que sabe "temperar" a sua relação com as coisas. ("coisas" em oposição aos objectos com significado) Individuos que sabem esperar. E sabem tirar o melhor que há nos outros.

Mas ainda existe um reduto na sociedade onde a tradição essencialista se faz sentir com toda a sua força - nas lideranças institucionais. Este é um paradigma que se sustenta na divisão entre lugares essenciais e lugares acessórios. O mesmo será dizer que se vê acontecer com muita frequência um lugar fazer muito por uma pessoa. São os lugares que os tornam - a essa gente! - essenciais. Pelo menos é assim que vêem o mundo! E a si próprios.

Qualquer sociedade efectivamente plural rejeitará essa visão. Para lá caminhamos. Lá chegaremos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Reconhecimento à loucura

"Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer o impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar."

Almada Negreiros

Será tão longo silêncio a loucura que quer vir à tona e não sabe como?...

ponto de situação




cosmos
imensa multidão
senhoras e senhores

apenas para dizer que:

1 - meu colega de blog não está verborreico!
2 - eu não estou afásico!

3 - conclusão : é a vida !!!

no entanto estou de volta e queria só deixar uma marca

até já

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Don`t stop me now

Cultura de bom senso e aprendizagem

Tenho falado de confiança. De alguma forma aquilo que tenho dito pode parecer ziguezaguiante, por um lado contesto a cultura essencialista porque assenta em crenças fundamentalistas, por outro, considero a ausência de confiança entre pares como uma causa directa de bloqueio social.

Portanto, o que é que defendo? Confiança, sim ou não? Bom ou mau?

Comecei a responder a estas questões quando defendi, num post anterior, que a confiança é simplesmente necessária. Não é boa nem má, não é uma escolha. Faz parte do funcionamento dos processos mentais. É um dos eixos do conhecimento.

A confiança é um factor que pode ser gerido. Tal como qualquer outra forma de conhecimento, como a informação. A melhor forma de a usar, para lidar com uma sociedade complexa - instável, evolutiva, diversa -, é o bom senso.

Defendo uma abordagem dinâmica que presume não cair em niilismos onde tudo vale e nada interessa, nem cair em fundamentalismos onde só uma coisa interessa e tudo o resto é irrelevante ou ameaçador. Bom senso, neste contexto, significa somente uma alteração de estado mental - significa ganhar consciência de que se vive dentro de uma faixa onde se confia o suficiente para permitir manter a operacionalidade intelectual e nunca demais, para não cair em padrões inerciais, estagnantes.

Esta é uma posição ética de abertura permanente aos outros e à natureza. É uma vivência baseada na aprendizagem.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pensamento Nº3 - verdade, confiança e poder

"...verdade objectiva não é mais nem menos do que a melhor ideia que possuímos actualmente acerca da maneira de explicar aquilo que se passa."

"A objectável autoconfiança em questão é simplesmente a tendência do discurso normal para bloquear o fluxo da conversação ao apresentar-se a si próprio como oferecendo o vocabulário comensurante para todo o discurso racional possível."

in Richard Rorty, A filosofia e o espelho da natureza

desconfiança e bloqueio

Quando hoje fui tomar café não pude deixar de ouvir uma afirmação dita numa conversa entre dois homens. Dizia um deles para o outro: - os engenheiros é que vêm estragar tudo!

Esta frase, assim descontextualizada, não permite grandes considerações. No entanto, serviu para puxar um tema que já me acompanha à muito. A incapacidade dos portugueses confiarem uns nos outros, nomeadamente nas suas chefias (lideranças).

Vejamos:
i) é um facto que uma larga maioria de portugueses gosta de futebol, mas curiosamente falam mais sobre a arbitragem do que do jogo propriamente dito. E desconfiam à partida do árbitro. No jogo o árbitro é a figura de autoridade;
ii) praticamente todas as histórias contadas sobre a actuação da polícia concluem que a sua intenção é chatear, caçar multas, mostar quem manda. Raramente se houve uma história que diga da justiça dos seus actos. Porquê? Será que a razão é o simples facto de serem uma figura de autoridade?;
iii) no discurso dos portugueses existem políticos sérios, trabalhadores, que servem a causa pública? Raríssimo. Mas alguém acredita que realmente eles não existem? Pelo menos do discurso estão praticamente ausentes;
iv) E sobre os professores. Basta falar nas políticas sistemáticas de desautorização pública desta classe, com o beneplácito geral, para verificar como a legitimidade de mais uma figura de autoridade vai sendo sistematicamente delapidada;
v) e a justiça? O que se diz sobre a justiça e sobre os juizes no nosso país criará uma dificuldade crescente de gestão do espaço público. O recorrente sentimento de injustiça administrativo é já um sintoma grave do nosso país, mas se esse sentimento se espalha para a máquina judicial as consequências devem ser gravíssimas.

Não pretendo discutir para já se existem razões suficientes para este estado de coisas, ou se é apenas a expressão da nossa cultura neste período específico que atravessamos. Posso dizer que esta incapacidade de confiar uns nos outros, e principalmente a quem circunstancialmente exerce o poder, bloqueia completamente qualquer sociedade. É o que está a acontecer comnosco.

Julgo, com pouca convição é certo, que qualquer poder é melhor do que nenhum poder.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um novo perfil para Portugal

Hoje fiquei bem impressionado com duas notícias publicadas no jornal Público de 17 Fevereiro de 2009, na página 6.

Nasceu uma nova fundação, denominada por Fundação Francisco Soares dos Santos. Foi criada pela família Soares do Santos e tem como objectivo "promover estudos que contribuam para melhorar o funcionamento das instituições públicas, contribuir para o desenvolvimento da sociedade e o reforço dos cidadãos."

Não podia ser mais oportuna!

Mas se os seus objectivos são importantes, considero mais relevante o que foi dito sobre os seus estatutos: "referem que a independência e o contraditório são condições base para todo o nosso trabalho."

A outra notícia são declarações de António Vitorino. Diz ela que "no futuro será necessário proceder a uma «revisitação à democracia representativa», uma vez que é evidente, defendeu, a «incapacidade actual do sistema de partidos.»

Existe uma relação entre estas notícias: ambas são geradas a partir de um problema que enferma a sociedade portuguesa: a parcialidade. E ambas as notícias desafiam esse perfil cultural. A fundação procurará promover estudos independentes, das afirmações de Vitorino pode se pressupor que a parcialidade dos partidos tem gerado muita ineficácia e bloqueios.

Um caminho possível parece ganhar legitimidade: são necessárias visões equidistantes, que procurem conciliar necessidades. Que nos libertem e nos permita aprender. Que inclua, em vez de assumir a defesa recorrente de uma qualquer parte.

Essas políticas baseadas em conhecimentos e pressupostos parciais são demasiado simplistas para servir num mundo tão complexo.

Mas estas notícias dão esperança!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Verdade e perfil cultural

Quais são os conceitos de verdade e de que forma é que determinam o perfil cultural de um colectivo?

Começo por apresentar resumidamente duas conceptualizações de verdade e depois analisarei de que forma é que cada um deles regula as relações sociais. Considero à partida que o conceito de verdade é central e determinante na forma como olhamos para nós próprios e para os outros.

Todos aderimos a um conceito de verdade, mesmo que o usemos de forma impícita - expressando-se apenas tacitamente na estrutura de pensamento. Não é exclusivo dos que têm consciência disso e/ou dos que são capazes de descrever de forma linguisticamente organizada como funciona esse processo lógico. Portanto, a verdade é um conjunto de regras lógicas que orientam toda a construção dos conteúdos mentais, nomeadamente a informação recebida no nosso quotidiano. Essa lógica pode presumir, segundo os filósofos, uma orientação absoluta ou relativa, subjectiva ou objectiva, parcial ou universal.

Arrisco mesmo dizer que a verdade é um dos principais habitantes do super ego.


Uma das formas socialmente mais relevante de dividir o conceito de verdade é aquela que separa os indívíduos que acreditam na sua universalidade dos que a assumem como sendo sempre parte de uma realidade. Esta forma separa os indivíduos capazes de acreditar apenas num conjunto de narrativas, considerando-as mais legítimas e acima de quaisquer outras, e aqueles que acreditam nas suas narrativas, mas sabem, simultaneamente, que elas são apenas a representação de uma parte da sua realidade.

E isto é diferente de cair na fórmula niilista consequente com a rejeição da verdade objectiva. Acredito que cada um, no seu posicionamento sensorial, lógico e social pode gerar verdades que correspondem com os factos. Acontece que estas verdades não são nem neutras, nem universais.

Os primeiro estão satisfeitos com as suas respostas fundamentais. E praticamente todo o seu esforço mental e comportamental em reacção aos estímulos do quotidiano reserva-se à criação de respostas que estejam de acordo com as suas crenças primárias. São criativos mas conservadores. Por um lado, vivem num mundo de confirmações, por outro, fazem o jogo constante da deslegitimação, tudo aquilo que não são capazes de confirmar é considerado ilegítimo.

Já acreditar na parcialidade das nossas representações, e viver consequentemente com essa filosofia, significa acreditar num certo tipo de ética - a da aprendizagem. A aprendizagem deverá ser a única forma de ultrapassar a ideia de que nunca conhecemos alguém ou alguma coisa por inteiro, e viver insatisfeitos mas pacificados com essa situação. A aprendizagem é a forma de ir ao encontro. Esta segunda forma é criativa e disruptiva e assume que a identidade é um processo.

Para além do mais, se a verdade é múltipla não é essencial, nem universal - e emerge de cada contexto, das experiências vividas e evolui. Nesta segunda filosofia a escolha continua a ser um instrumento social fundamental. Não "vale tudo". Contudo presume que as crenças nos conteúdos gerados nessas escolhas podem ser encaradas como consequências naturais e próprias do funcionamento da mente. Nada há de essencial nem metafísico nesse processo. Apenas humanidade. Escolhas humanas que podem ter vários motivos: inclusão, manter intacta uma estrutura ética, viver de acordo com as normas sociais, ou de acordo com qualquer visão metafísica ou religiosa. Seja lá o que for.

A crença é uma necessidade humana, não é um erro nem é uma virtude. Tudo o resto é fruto da regulação social, expressão social, diálogo social, das escolhas humanas.

Não vale tudo, é certo, mas o contrário também é verdade, também não vale uma coisa só.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Cultura, identidade e verdade

A conversa evoluiu para o conceito de verdade. Vou tentar escrever acerca da sua relação com a cultura e com a edificação de identidades. Procurando, portanto, fazer a ponte entre este tema e o da individualidade.

Qual será o valor cultural do conceito de verdade? Ou qual será a sua influência na forma como se estruturam as relações entre pessoas? E qual será a sua relação com a formação das identidades?

Essas são algumas perguntas que orientarão esta conversa, neste e nos posts seguintes.

Presumo que se possa afirmar que a individualidade depende dos estímulos captados, depois interpretados e, finalmente, fixados numa qualquer forma organizada. A certa altura são elaboradas um conjunto de narrativas, que se presumem nos definem ou definem os outros. Mas a evolução dessas narrativas, os elementos que seleccionamos durante a sua construção, presumem-se verdadeiros. Isto é, que correspondem com a realidade.

Portanto, a partir desta interpretação, existirá uma relação entre essas narrativas de definição de identidades e a própria noção de verdade. No entanto, existem vários conceitos de verdade. Embora cada um de nós adira a uma única forma.

É aqui que a porca torce o rabo - ou assim me parece. A hipótese que defendo é que a adesão individual a um conceito de verdade determina a forma dos seus relacionamentos, e que, num determinado espaço, as escolhas colectivas do conjunto criam o perfil cultural desse mesmo espaço.

Quais são os conceitos de verdade e de que forma é que determinam o perfil cultural de um colectivo fica para o seguinte post.