Qualquer desafio humano faz representar o seu actor como consciência de ser individual com referência a um grupo. A procura de soluções individuais ou colectivas mais ou menos organizadas parecem sempre surgir como formas de sobrevivência, de adaptação ao meio e de transposição/exploração das zonas de fronteira conhecidas ou de meio de contacto com os pares.
Conceber o mundo como um espaço de dever ou espaço de devir, pode oferecer a cada um de nós horizontes ilimitados de criação e do pensamento.
O mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo do hoje, são as palavras de Heraclito.
Os lugares e as pessoas, com as sucessivas actualizações ao longo dos tempos. Outrora o rio, o deserto, as viagens, as fundações, as instituições e por ai fora, como forma de organizar necessidades e implementar soluções. Formas que chegam até nós como escolas, bancos, serviços, direitos e deveres. Também as alianças, os pactos e as divisas e as suas implicações emocionais – casamentos, uniões, assistência e prazer.
Talvez, viver o tempo que cabe a cada um de nós com consciência do que somos seja anti-humano. Como se uma hiper consciência fosse letal à dimensão criativa do sujeito.
Hiperfuncionar sugere uma inibição da verdadeira função do pensamento, e a restrição de uma necessidade de expansão humana quer emocional quer funcional.
È certo que, nichos cada vez mais vastos, das sociedades, promovem e incentivam uma standartização e homogeneização de dimensões não relacionáveis e mesmo incompatíveis, pode-se dizer. Confundindo o pleno de garantias e deveres, de serviços e organização das necessidades com o que se relaciona com o humano e pessoal. Chegando ao caricato de implementar campanhas de humanização dos serviços e instituições. Como se humanos não fossemos todos nós, ou estivéssemos a funcionar à margem, ou num eventual delírio megalómano, acima do humano ou à semelhança da máquina.
O rio que Heraclito observou continua a correr tal como as suas palavras que sulcam o espaço do Pensamento Humano, permitindo lavouras modestas como a minha por exemplo.
Ambiguidade, levanta dúvida, incerteza e não raras vezes irresolução – exige antes de mais pensamento, depois capacidade e tempo para o fazer. (Os rios demoram a correr e tem correntes ocultas). Agir oferece-se como a forma mais evidente - porque visível - e aproximada de um pensamento. E desvalorizada também como se o que somos e fazemos tivesse a grande benesse pós-moderna da indiferença ou das respostas pré-feitas – a decência e a comodidade moralizante de hábitos e atitudes alimenta a preguiça chocha da sociedade.
Ambiguidade, pode também levantar as mesmas dúvidas e fazer eco em nós e por isso comunicado pela expressão critica do pensamento e emoções humanas – tratados, telas, paixões, combates, sinfonias.
Porque será que a história da arte ou da literatura, as emoções ou os pensamentos ficam sempre melhor numa moldura requintada, numa edição de luxo, numa biblioteca privada ou numa festa com glamour que no quotidiano solto dos dias?
Cá vamos escrevendo umas coisas. mutatis mutandis.