É verdade que existe sempre quem esteja disponível. Assegurando que o espaço público, que é feito por todos os tipos de pessoas, esteja também disponível.
Existem contudo demasiados vegetantes" e isso é lamentável. Mas, defendo que a procura dos disponíveis, gente com uma larga capacidade para investir, é da responsabilidade de cada um. É fundamental ter presente que com a liberdade vem a responsabilidade. E antes de mais nada cada um é responsável pela gestão da sua própria vida.
O segundo esclarecimento que procuro fazer neste post tem haver com aquilo que digo em "Duas Caras". Porque se presta a equívocos. Nessa análise faço uma sobreposição de duas narrativas, uma mais psicológica e universal e uma mais social e localizada.
A intimidade é um espaço interessante onde se desenrolam riquíssimas tramas. Concordo em absoluto. E a exposição pública dessa vivência é problemática para qualquer ser humano. Essa questão é universal. Isso também foi captado pelo Miguel Torga. Fica ainda por exclarecer se esse é um problema de imaturidade das sociedades humanas ou se será uma característica psicológica própria da humanidade. A outra narrativa falava sobre a incapacidade dos portugueses para se exporem. Defendi que isso se deve à imaturidade democrática da nossa sociedade.
Pretendo corrigir a dita sobreposição com um argumento estatístico. Ou seja, o que distingue aquilo que é universal do que específico (não exclusivo) do caso português é a intensidade e frequência dessa incapacidade. As sociedades podem dar mais ou menos "espaço" às trajectórias de cada indivíduo. Principalmente, no que respeita à pressão correctiva exercida pelo todo sobre as escolhas mais excêntricas de cada um.
A diferença entre uma sociedade cuja pressão sobre as excentricidades é mais ou menos intensa pode significar uma espaço social com uma percentagem maior ou menor de indivíduos que se sentem auto-determinados, e por isso confiantes e motivados para investir - no trabalho, nos outros, em si próprios, no espaço público, etc.
Portando, o que quero dizer é que o português tem de se debater, primeiro, com uma condição normal à humanidade e, segundo, com o facto de nascer e viver numa sociedade que ainda não é capaz de lidar com aquilo que lhe é estranho. Essa sociedade está indisponível, estatisticamente falando, e produz muitos vegetantes.
Mas esse vegetar, quanto a mim, é já uma antecâmara para uma nova sociedade. É já o fim de uma coisa ultrapassada. É um período pré-renascimento, passo o exagero. Parece-me que os percursos individuais já são em número e diversidade suficiente para, primeiro, gerar desejos fortes e diferenciados, segundo, criar conflitos e tensões sociais tão frequentes e cada vez mais intensos, que, terceiro, estão a pressionar a vivência íntima de cada um no sentido de expelir para o espaço público toda essa diversidade.
E assim tornar a nossa sociedade estatiticamente mais disponível.
Veremos.
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos
Sem comentários:
Enviar um comentário