No debate público português é manifestamente difícil dizer bem. Seja um qualquer elogio dirigido ao que for. É recorrente ser censurado quando se opta por apresentar o lado positivo das coisas. Entenda-se esta censura como um pequeno gesto: um breve comentário, um som de insatisfação, uma cara de indiferença, um esgar de desconforto, etc. Por vezes também surge um argumento mais elaborado.
Mas é importante dizer que na grande maioria das vezes essa atitude, parece-me, é suportada em boas intenções. Aqueles que reagem à expressão pública que pretende enaltecer aspectos positivos da nossa sociedade não o fazem por não gostarem de coisas boas. Estão sem dúvida imbuidos de um espírito de missão e bondade. Os seus argumentos são no sentido de alertar para os perigos da visão positiva: do perigo de criar insensibilidade à pobreza, às injustiças, a existência de racismo, ao mau funcionamento das entidades públicas e privadas, à crise, etc. E dizem-no porque implícita ou explicitamente sentem que são questões demasiado óbvias, graves e que exigem uma militância sistemática.
Mas também poderemos encarar esta situação de outra forma: uma visão negativa pode criar insensibilidade às coisas boas que nos rodeiam. O discurso do declínio é manifestamente desencorajador para quem trabalhou afincadamente e sente que conseguiu atingir qualquer coisa. Mais: o discurso negativo é muito socializante no nosso meio, faz um estar social muito mais fluído. Encerrando-nos nessa mesma postura crítica, porque é fácil ser correspondido positivamente quando se diz mal, seja no café, na pausa do trabalho, na paragem do autocarro, no nosso blog, etc. E isso faz-nos sentir acompanhados, ouvidos. Exactamente o que não é possível quando se tem uma postura positiva - esse discurso é quase sempre interrompido.
Se é verdade que essa postura negativa tem o mérito de nos fazer sentir acompanhados (não é bem verdade, mas...), também é notório que retira ímpeto aos indivíduos, reduz capacidade para transformar o que está mal. Viver sobre o espectro absoluto da negatividade pode parecer mais piedoso, mais bondoso, mais sensível aos outros, mas quando é demais retira força, reduz a vontade, individual e colectiva. E isso torna-se pernicioso: porque ao retirar capacidade para mudar o que está mal perpetuamos exactamente os problemas que desejamos que não existam, e porque se tornam tão óbvios ficamos todos incrédulos acerca das razãos pelas quais eles ainda persistem.
Em conclusão: perdemos crença na nossa capacidade e adquirimos uma grande crença sobre as nossas incapacidades. E assim nasce uma religião - a crença no declínio. Nós vivemos dominados por essa visão, tal como se fosse a nossa religião. E como no seio de qualquer religião tornou-se inaceitável assumir uma atitude crítica ou distinta dos princípios que a governam, princípios que também orientam a sociabilização.
É evidente que existem, sempre existirão imperfeições nas sociedades, a realidade tem sempre um lado sujo que não pode ser descurado, mas, por outro lado, temos de ter capacidade para assumir todos esses combates, seja no terreno ou no campo das mentalidades. E essas são batalhas que demoram..., para tal é necessário gente motivada, que acredita na fecundidade das pequenas mudanças, que compreende tudo isto e está disposto a lutar e esperar ao mesmo tempo.
Finalmente é Sexta-feira
Há 14 anos